Quinta-feira, 13 de agosto de 2026

De estupro a armação: peça-chave em denúncia contra vice de Flávio Bolsonaro apresenta versões opostas

Em março deste ano, Luiz Antonio Lopes, morador de Nilópolis, na Baixada Fluminense, entrou em contato com a assessores da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) relatando que conhecia uma jovem de Alagoas que teria sido abusada pelo deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) e engravidado quando tinha 13 anos. Para entregar mais detalhes da suposta denúncia, a testemunha pediu dinheiro para a parlamentar. A história foi compartilhada por Soraya com o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ).

Na ocasião, o deputado do PL vivia um embate com governistas na CPI do INSS sobre o filho mais velho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Aliados do Palácio do Planalto tentavam blindar o primogênito da apuração, enquanto o relator, o próprio Gaspar, queria investigá-lo — ele pediu a prisão e o indiciamento de Lulinha no relatório final, que foi rejeitado pelo colegiado.

Com o clima acirrado, a acusação contra o relator veio à tona na manhã de 27 de março, dia em que o documento com as conclusões da comissão foi apresentado. Gaspar foi interrompido no início de sua fala por parlamentares petistas, que consideravam que ele estava propositalmente demorando a começar a ler o relatório.

Lindbergh disse que não iria “perder tempo” e ouviu uma provocação de Gaspar: “Deputado ‘Lindinho’, não estamos falando de Odebrecht. Calma”, afirmou o relator, em referência ao apelido do petista na planilha da empreiteira encontrada na Operação Lava-Jato. “Seu estuprador”, reagiu Lindbergh. Houve tumulto na sessão e troca de acusações em entrevistas fora do plenário. No mesmo dia, Soraya e Lindbergh encaminharam ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, um pedido de investigação sobre o caso.

O documento de seis páginas diz que os dois parlamentares tiveram acesso a “informações graves, acompanhadas de registros documentais e conversas que serão apresentados em anexo, indicando, em tese, a prática do crime de estupro de vulnerável”. O caso teria ocorrido há oito anos. Soraya disse a interlocutores que o denunciante pediu dinheiro para dar mais informações, o que interrompeu as conversas. No dia seguinte, Gaspar compartilhou um vídeo em que uma mulher nega ser sua filha e diz que o pai é um primo do deputado. A senadora disse nas redes na ocasião que a mulher apresentada pelo deputado não é a suposta vítima do estupro.

A PF levou o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF) e, na semana passada, o ministro Gilmar Mendes, relator na Corte, determinou que a senadora preste mais informações. Ela terá 15 dias para fornecer mais elementos da denúncia que recebeu de Lopes. A Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda aguarda esclarecimentos para decidir se vai concordar com o pedido de abertura de inquérito feito pela PF. A decisão final é de Gilmar.

Gaspar contesta as acusações, pediu ao STF que determine um exame de DNA e entrou com processos no Supremo contra Lindbergh e Soraya por calúnia. Aliados de Flávio manifestaram preocupação com a repercussão do caso, já explorado pelo PT nas redes sociais.

“Estou implorando para que haja um DNA. O meu material está à disposição há cinco meses da Justiça. A minha verdade não interessa, o que interessa é a verdade científica”, afirmou Gaspar na semana passada.

Depoimentos 

Dezoito dias após vir à tona na CPI do INSS, o suposto caso de estupro de vulnerável ganhou um novo capítulo. Uma assessora de Gaspar na Câmara prestou um depoimento à Polícia Legislativa no dia 14 de abril e disse que recebeu uma ligação em que Luiz Antonio Lopes afirmava ter conhecimento de uma “armação” para imputar o crime de estupro a Gaspar. Uma semana depois, a assessora depôs novamente e afirmou que o comerciante havia ligado outra vez e dado mais detalhes sobre pagamentos que teriam sido feitos para os envolvidos na suposta articulação para incriminar o relator da CPI do INSS.

No mesmo dia em que a assessora forneceu novas informações, Lopes prestou depoimento à Polícia Legislativa por meio de videoconferência. Ele apresentou uma versão diferente da que havia prestado inicialmente ao gabinete de Soraya e que fez o caso chegar ao STF.

A testemunha afirmou que uma jovem chamada Marcela, que prestou serviços no quiosque de sorvetes de que era dono em um shopping na Zona Norte do Rio, foi cooptada por Lindbergh e por um assessor do petista para se passar por “Jailma”. De acordo com o depoimento, ela seria “preparada para conceder entrevista sob identidade falsa”, afirmando ser de Maceió e ter sido abusada por Gaspar na adolescência.

Lopes acrescentou que a própria conta bancária foi usada para receber valores supostamente viabilizados por um assessor que seria ligado a Lindbergh, em um total de R$ 16.500. Ele apresentou dois comprovantes Pix: um de 14 de fevereiro, de R$ 10 mil, e outro de 28 de março, de R$ 2.500. (Com informações do jornal O Globo)

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