Terça-feira, 25 de junho de 2024

Declaração de Lula de que País não vai atingir déficit zero em 2024 enfraquece esforço do ministro Fernando Haddad e abre brecha para aumento de gastos

Ilustração

A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que o País não atingirá o resultado primário zero em 2024 mexeu com os negócios na Bolsa e nos mercados de câmbio e juros e, segundo analistas, passou uma sinalização ruim sobre o futuro das contas públicas.

A leitura é de que o presidente caminha para dar mais força para a ala política do governo, que já indicou ser favorável a uma mudança da meta de resultado primário (receitas menos despesas, sem contar os juros da dívida), abrindo espaço para que Congresso e integrantes do próprio governo passem a defender aumento de gastos. Isso enfraquece politicamente a posição do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que tem resistido ao “fogo amigo” e mantido até aqui o discurso de que a meta não será alterada.

“A fala do presidente (Lula) abre brechas políticas. Dificulta muito e praticamente impossibilita qualquer chance de o Haddad conseguir chegar, de fato, em (déficit) zero no ano que vem, porque a pressão em cima dele vai ser muito grande”, diz Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados.

O aumento de percepção de risco fiscal fez o dólar superar novamente a marca dos R$ 5, depois de passar parte do dia em queda. O sinal inverteu após as declarações de Lula, e a moeda fechou com alta de 0,46%, cotada a R$ 5,0131. O movimento não foi diferente na Bolsa, que terminou o dia no patamar de 113,3 mil pontos, um recuo de 1,29%. A queda só não foi maior por conta do ganho individual de alguns papéis no dia, como Vale (alta de 3,48%).

Efeito ainda no mercado de juros. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025, por exemplo, que estava em 10,79%, foi negociada a 10,99%.

Combustíveis fósseis

A atual crise hídrica que está ocorrendo na Região Norte do Brasil traz de volta as preocupações legítimas sobre as mudanças climáticas. De um lado, os ambientalistas mais radicais afirmam que é preciso reduzir ao máximo o uso de combustíveis fósseis no mundo: carvão, petróleo e gás natural. Afirmam, também, que o Brasil não escapa da sandice planetária devido à posição do governo Lula ser ambivalente em relação à questão ambiental e climática ao se comprometer em combater o desmatamento e não entender que explorar mais petróleo aprofunda a crise climática. Por outro lado, precisamos mostrar que sem o uso dos combustíveis fósseis não conseguiremos fazer uma transição energética para atender ao trilema sustentabilidade, segurança e acesso à energia por parte das camadas mais baixas da sociedade. Vamos olhar especificamente o que está ocorrendo na Amazônia.

Quando foram construídas as grandes hidrelétricas de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte, criou-se a narrativa de que era necessário que as usinas fossem a fio d’água para atender às exigências de preservação do meio ambiente. Com essa decisão renunciamos à construção de eclusas, à navegação pelo rio e a fornecer confiabilidade ao sistema elétrico. Ou seja, ao invés de minimizar as emissões de CO2, acabou por piorar na medida em que, quando temos seca, a única saída é ligar térmicas a óleo diesel mais caras e poluentes, dado que as eólicas e solares, também, são intermitentes. Já que não podemos reconstruir as usinas com reservatório, a saída definitiva e estrutural é a térmica a gás operando na base do sistema. Problema de oferta de gás natural na Amazônia não existe, na medida em que existem grandes reservas de gás na região. O problema real é a falta de infraestrutura de gasodutos. Por exemplo, por que não construir um gasoduto ligando Manaus a Porto Velho? Essa térmica a gás faria o papel de firmar a energia dessas hidrelétricas e permitiria um melhor gerenciamento do uso da água para outros fins.

O problema é que, quando essa solução é apresentada, começa o discurso de que essas térmicas são jabutis e vão encarecer a conta dos consumidores. Fake news! Mais uma narrativa criada que acaba virando verdade. Primeiro, a conta dos consumidores não vai aumentar, ao contrário. Colocando térmicas a gás na base, a volatilidade dos preços será reduzida. Elas funcionariam como uma espécie de bateria tanto para as hidrelétricas como para as eólicas e solares, além de minimizarem a emissão de CO2, na medida em que não ligaremos as térmicas a diesel. Precisamos parar com as narrativas e passar a fazer conta. O problema é que ninguém gosta de fazer conta e às vezes nem sabe fazer. As contas bem-feitas mostrarão quem são os verdadeiros jabutis.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Economia

No Brasil nascem mais meninos, só que o País é cada vez mais feminino
Cidades com até 5 mil habitantes e agrícolas são as mais masculinas
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play