Terça-feira, 15 de setembro de 2026

Ecoansiedade: quando a preocupação com o planeta e as mudanças climáticas viram estresse crônico

A preocupação com o futuro do planeta pode deixar de ser um medo pontual e interferir de forma persistente na vida cotidiana. O receio de uma nova tempestade, a sensação de falta de controle diante de eventos extremos ou a angústia provocada pelas transformações ambientais podem afetar a saúde mental. Quando esse sofrimento se torna frequente e compromete a rotina, pode estar associado à ecoansiedade, termo usado para descrever impactos emocionais relacionados à crise climática e suas consequências.

A ecoansiedade não é um diagnóstico clínico nem um transtorno específico reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Ainda assim, pode causar sintomas como angústia, tristeza, irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração e crises de ansiedade ou pânico. Em 2017, a Associação Americana de Psicologia (APA) a definiu como o “medo crônico de catástrofes ambientais”.

Para a designer e estrategista de sustentabilidade Jéssica Alcântara, a ecoansiedade surgiu após viver uma microexplosão, em 2022, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A força das rajadas dobrou um telhado de alumínio, que caiu sobre a escada de acesso à sua casa. Sem conseguir descer, ela ficou presa no andar de cima enquanto via objetos voarem pela janela.

“Parecia que eu estava no olho da tempestade. Havia muito barulho, tudo era muito intenso. Olhava pela janela e não via nada, só ouvia as coisas batendo no guarda-corpo e na porta”, conta Jéssica.

Nos meses seguintes, passou a ficar apreensiva diante da previsão do tempo. Em uma madrugada de 2023, durante uma ventania, teve uma crise de ansiedade e procurou uma psicóloga, com quem continua em acompanhamento.

“Comecei a perceber que as mudanças climáticas deixaram de ser uma discussão distante, sobre um futuro abstrato, e passaram a fazer parte das decisões concretas da minha vida. Fico pensando onde vou morar, para que não tenha risco de enchentes. Penso em lugares onde me sentirei mais segura e em que tipo de cidade quero viver”, destaca.

Uma pesquisa realizada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em parceria com a Universidade de Oxford e o instituto GeoPoll, em 2024, mostrou que 56% dos entrevistados pensavam em problemas relacionados ao clima pelo menos uma vez por semana.

No Brasil, a edição de 2025 do Panorama da Saúde Mental, produzido pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, mostrou que 74,3% dos mais de 10 mil entrevistados já haviam vivenciado diretamente as consequências de algum evento climático extremo. Quase 42% disseram acreditar que as mudanças climáticas têm ou já tiveram impacto sobre sua saúde mental.

Preocupação

Segundo William Berger, professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pessoas que já vivenciaram uma catástrofe podem ficar mais vulneráveis diante da possibilidade de que algo semelhante aconteça novamente. Pessoas com transtornos de ansiedade, fobias ou outras condições preexistentes também podem apresentar respostas mais intensas. No entanto, a ecoansiedade também pode atingir quem nunca viveu essa experiência.

“Quando falamos de uma pessoa que nunca passou por um desastre, falamos de ansiedade pela antecipação do perigo. Quando acontece, tudo muda. É como se a gente abrisse a porta para sequelas psiquiátricas, como transtorno do estresse pós-traumático, depressão pós-trauma e outros quadros secundários quando ocorre um trauma físico”, explica.

É o caso de Diogo Feliciano. Morador de São Paulo, o cientista político nunca passou por um evento climático extremo, mas acompanha as mudanças ambientais e afirma viver em constante estado de ecoansiedade. A situação influencia escolhas cotidianas, como priorizar o transporte público e evitar o consumo de fast fashion.

A crise climática também interfere na maneira como pensa o futuro. Diogo diz ter vontade de ser pai, mas decidiu que pretende adotar uma criança em vez de ter um filho biológico.

“Eu tenho muita vontade de ser pai. Mas não penso em colocar uma criança no mundo agora, porque me sinto um pouco sem esperança e sem perspectiva de como vamos estar nos próximos anos. Eu me sentiria muito culpado de colocar uma criança em um mundo que parece que não aguentará 30 anos”, afirma.

As notícias sobre a crise climática também despertam nele uma sensação de impotência.

“Enquanto estou fazendo um trabalho de formiguinha, como vou combater uma Big Tech do Vale do Silício que está instalando vários data centers? É muito desesperador você fazer um trabalho que, é claro, vai ter impacto, mas é um impacto muito menor”, avalia.

Apesar disso, afirma que ainda tem esperança e que ela o motiva a trabalhar com temas ambientais. (Com informações do jornal O Globo)

 

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Comportamento

União Europeia pretende restringir redes sociais e chatbots para menores de 15 anos
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play