Sábado, 29 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 29 de agosto de 2026
Pesquisas de opinião têm algo em comum com a culinária. Para saber se uma sopa está bem temperada, nenhum cozinheiro pensaria em tomar a panela inteira: basta provar uma colher. As pesquisas são parecidas. Para entender o eleitorado, os institutos não precisam, nem deveriam, entrevistar todas as pessoas. Isso seria o mesmo que refazer a própria eleição. Para ter uma ideia razoável, uma pequena amostra serve.
A ciência por trás das pesquisas de opinião pública é fascinante e muito bem desenvolvida. Mas, da teoria à prática, existem grandes desafios e técnicas diferentes para garantir uma boa amostra. Nenhum levantamento é perfeito e é preferível analisar a média de todos os institutos, quando isso é possível, do que se apoiar em apenas um.
Há alguns problemas tão complicados que acabam influenciando os dados de maneira geral e também a própria média. Dois deles, em particular, ocorreram em 2022 e provavelmente estão ocorrendo também em 2026. Ambos aumentam, um pouco, a vantagem da esquerda nas pesquisas.
O primeiro desafio aparece na construção da amostra e afeta particularmente as pesquisas baseadas em entrevistas presenciais. Até a década passada, as entrevistas presenciais rendiam resultados mais confiáveis do que as outras técnicas disponíveis e compensavam o alto investimento em comparação com as entrevistas telefônicas. Hoje, isso é questionável, e pesquisas telefônicas e online têm apresentado resultados, em média, mais certeiros. A causa provável é a dificuldade crescente de colher as respostas de eleitores de alta renda, que se fecham cada vez mais em seus condomínios e circulam cada vez menos pelas cidades.
As pesquisas telefônicas e online também têm suas dificuldades em alcançar todos os tipos de pessoas – afinal, nem todo mundo atende celular hoje em dia –, mas essas falhas afetam eleitores de tipos mais diversos e não desequilibram tanto a amostra. Eleitores de alta renda têm uma propensão maior a votar na direita e acabam sub-representados em muitas pesquisas presenciais.
Abstenção
O segundo problema tem a ver com as respostas de eleitores que acabam não indo votar. A abstenção no Brasil é relativamente baixa, pois o voto é obrigatório, mas há pessoas que acabam faltando. Elas até têm uma opinião sobre seus candidatos preferidos, respondem quando entrevistadas, mas desistem no fim.
O eleitor mais propenso a isso é o de baixa renda, por causa do custo econômico do voto. O deslocamento pode ser longo ou atrapalhar a rotina de alguém que poderia ganhar um dinheiro extra com algum trabalho informal. Seja qual for o motivo, isso tende a tirar mais votos da esquerda do que da direita, em comparação com a média das pesquisas.
Institutos têm investido em modelos de “eleitor provável”, que ajudam a reduzir esse viés de abstenção. Em setembro, quando o eleitor começa a ter uma ideia mais firme sobre a chance de faltar, esses modelos serão vistos com mais frequência. Ainda assim, nem todos os institutos terão esse filtro.
Considerando esses fatores, é possível pensar que, se a eleição fosse hoje, Lula ganharia, mas não com 4 ou 5 pontos de vantagem, conforme a média das pesquisas. A eleição seria mais parecida com a de 2022, quando Lula teve 50,9% dos votos válidos. O presidente conta com a campanha para ganhar alguns pontos de popularidade, prometendo a redução da jornada de trabalho e erguendo outras bandeiras sociais. Mas a margem de erro é muito pequena, e denúncias contra Lulinha ou reveses no Congresso – como um possível retorno da “taxa das blusinhas” – representam risco real. (As informações são do jornal O Estado de S. Paulo)