Quarta-feira, 03 de junho de 2026

Empresas brasileiras devem ter “muito cuidado”, diz ex-cônsul dos Estados Unidos sobre PCC e CV

Empresas que atuam no Brasil precisarão reforçar mecanismos de controle e avaliação de riscos após a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. O alerta foi feito pelo ex-cônsul e ex-diplomata norte-americano Ricardo Zúñiga, que afirmou que companhias devem agir com “muito cuidado” para evitar qualquer tipo de exposição indireta às facções criminosas.

A declaração ocorre em meio à repercussão da medida anunciada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que determinou a inclusão do PCC e do CV na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês). A classificação passa a valer a partir de 5 de junho e amplia o alcance de sanções financeiras e restrições aplicadas pelas autoridades americanas.

Segundo Zúñiga, que trabalhou por cerca de três décadas no Departamento de Estado dos EUA, a preocupação não se limita a empresas que mantenham relações diretas com integrantes das facções. O desafio, segundo ele, está na possibilidade de exposição indireta, especialmente em cadeias produtivas complexas ou em regiões onde grupos criminosos exercem influência econômica.

Especialistas em direito internacional e compliance também têm alertado para possíveis reflexos sobre bancos, exportadoras e grandes companhias com atuação nacional. Relatórios elaborados por escritórios de advocacia apontam que instituições financeiras e empresas dos setores de agronegócio, mineração, energia e telecomunicações poderão enfrentar maior escrutínio de autoridades e parceiros internacionais.

A preocupação decorre do fato de que o PCC e o CV expandiram suas atividades ao longo dos últimos anos para além do tráfico de drogas, alcançando áreas como extorsão, logística ilegal e controle de cadeias de abastecimento em determinadas localidades. Isso pode tornar mais difícil para empresas identificar eventuais vínculos indiretos em suas operações.

O governo brasileiro criticou a decisão de Washington. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a medida representa uma interferência em assuntos internos do país e defendeu que o combate ao crime organizado deve ocorrer sob responsabilidade das instituições brasileiras.

Apesar das divergências diplomáticas, analistas avaliam que a classificação americana tende a aumentar a pressão para que empresas ampliem procedimentos de due diligence, monitoramento de fornecedores e controles de conformidade. A expectativa é que setores mais expostos ao comércio internacional sejam os primeiros a revisar protocolos internos para reduzir riscos regulatórios e preservar relações com investidores e instituições financeiras estrangeiras.

A decisão dos Estados Unidos reacendeu o debate sobre os impactos econômicos do crime organizado e sobre os desafios enfrentados por empresas que operam em um ambiente cada vez mais sujeito a exigências internacionais de transparência e prevenção a atividades ilícitas.

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