Segunda-feira, 22 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 22 de junho de 2026

O Boletim Focus desta semana trouxe uma leitura que acendeu alerta no mercado: mesmo com a inflação convergindo para perto de 3,5% em 2028 e 2029, a taxa Selic deve permanecer em torno de 10% nesses anos. A projeção sinaliza um juro real elevado de forma persistente, reorganizando a dinâmica da economia e impondo desafios adicionais às empresas brasileiras.
Segundo o relatório, a inflação segue resistente, com o IPCA projetado em 5,33% para 2026, acima do teto da meta pelo 14º ajuste consecutivo. A Selic, que já encerra 2026 em 14,25%, cai lentamente, mas não rompe o patamar de dois dígitos até o fim da década. O PIB, por sua vez, patina entre 1,7% e 2% ao ano, refletindo um crescimento limitado e dependente de eficiência operacional.
Para o mercado, o recado é claro: o Brasil caminha para um ciclo de juros estruturalmente altos, em que o custo de capital deixa de ser apenas um aperto passageiro e passa a se consolidar como característica permanente. “Mais revelador do que os números de curto prazo é a trajetória estrutural. O mercado projeta Selic ainda em torno de 10% em 2028 e 2029, sinalizando um juro real elevado de forma persistente. Disciplina financeira e qualidade da estrutura de capital passam a definir quem sai desse ciclo em melhor posição”, afirmou Peterson Rizzo, Head de Relações com Investidores da Multiplike.
O impacto prático vai além do crédito caro. Margens ficam comprimidas pelo aumento das despesas financeiras, investimentos são adiados e empresas mais alavancadas enfrentam maior dificuldade para sustentar operações. “Juros altos reorganizam a economia porque aumentam a exigência sobre governança, liquidez e controle de risco. Crescimento passa a depender menos de expansão generalizada e mais de qualidade das estruturas financeiras”, destacou Edgar Araujo, CEO da Azumi Investimentos.
Na avaliação de Cassio Viana, da Pilar Capital, negócios com balanços sólidos e menor alavancagem tendem a sair fortalecidos. “O principal desafio será sustentar crescimento e investimento em um cenário de juros elevados e condições financeiras restritivas”, disse. André Matos, da MA7 Capital, foi ainda mais direto: “Esse arranjo reorganiza o crescimento de forma perversa, privilegiando renda fixa pública com retorno real próximo de 10% ao ano e tornando difícil justificar investimentos produtivos.”
Para as empresas, o efeito é imediato. Projetos de expansão passam a exigir retornos significativamente mais elevados, setores dependentes de alavancagem enfrentam deterioração gradual da rentabilidade e o consumo doméstico perde força com crédito caro. Em contrapartida, companhias com geração de caixa sólida, governança robusta e menor dependência de dívida tendem a atravessar o ciclo em posição privilegiada.
O cenário exige disciplina e inovação. Estruturas como FIDCs, FIIs, FIAGROs e soluções de gestão de caixa ganham relevância porque oferecem mais previsibilidade e eficiência ao capital. “O mercado tende a premiar negócios com geração de caixa e balanço saudável, enquanto empresas menos eficientes sofrem mais com custo financeiro e revisão de resultados”, observou Fábio Murad, da Ipê Avaliações.
Em resumo, o Boletim Focus reforça que o Brasil não entra em estagnação, mas em um ambiente de crescimento moderado e custo de capital estruturalmente alto. Para empresas e investidores, o recado é inequívoco: eficiência, disciplina e inovação financeira serão determinantes para atravessar esse ciclo e preservar competitividade. (por Gisele flores – gisele@pampa.com.br)