Sábado, 20 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 19 de junho de 2026
O hábito de Carlo Ancelotti de usar gomas de mascar durante partidas de futebol desperta curiosidade há décadas. Nas passagens por clubes como Real Madrid, Milan, Chelsea, Paris Saint-Germain e Bayern de Munique, o treinador frequentemente foi flagrado trocando de gomas diversas vezes ao longo das partidas. Ancelotti já contou em entrevistas que foi fumante e que substituiu o cigarro pela goma de mascar. Mas o que a ciência diz sobre esse costume?
Segundo especialistas em odontologia e gastroenterologia, a goma de mascar pode trazer benefícios quando utilizada corretamente, especialmente na versão sem açúcar e por um período limitado, de cerca de 10 minutos. Ela pode ser utilizada principalmente após as refeições, quando não é possível realizar imediatamente a higiene bucal, mas não deve substituir a escovação nem o uso do fio dental. Por outro lado, o uso inadequado ou excessivo pode gerar efeitos adversos.
Entre os benefícios citados pelos especialistas ouvidos para esta reportagem e nos estudos científicos, estão: aumento da produção de saliva, ajuda na prevenção de cáries, redução da placa bacteriana e melhora temporária do mau hálito, além de possíveis ganhos de atenção, alerta e desempenho cognitivo.
Já entre os potenciais efeitos negativos do uso excessivo estão: dores na mandíbula, agravo de casos de disfunção temporomandibular (DTM), aumento da produção de gases intestinais por ingestão de ar e diarreia em pessoas sensíveis a alguns adoçantes.
Goma sem açúcar pode ajudar a proteger os dentes
De acordo com especialistas em saúde bucal, o principal benefício da goma de mascar está no estímulo à produção de saliva. Esse aumento ajuda a equilibrar o pH da boca, remover resíduos alimentares e promover uma espécie de “autolimpeza” da cavidade oral.
A saliva também contribui para a lubrificação da mucosa bucal, reduzindo a proliferação bacteriana e proporcionando maior conforto oral, destaca a especialista em Ortodontia Funcional dos Maxilares e Mestre em morfologia pela Unifesp Maria Rita Sancho Rios Xavier.
Uma revisão científica publicada na revista Frontiers in Oral Health concluiu que mascar goma sem açúcar pode ajudar a prevenir cáries. Os mecanismos apontados incluem: aumento da produção de saliva; neutralização da acidez da boca; remoção de resíduos alimentares; remineralização do esmalte dentário; redução do crescimento de bactérias associadas à cárie.
Outra revisão sistemática com meta-análise também encontrou redução significativa da placa bacteriana entre pessoas que utilizavam goma sem açúcar, especialmente aquelas contendo xilitol.
Goma de mascar não substitui escova nem fio dental
Apesar dos benefícios observados, os especialistas são categóricos: mascar chiclete não substitui a higiene bucal tradicional.
A goma pode funcionar como uma medida temporária após as refeições, especialmente quando não é possível escovar os dentes imediatamente. Mas ela apenas prolonga o tempo até a higienização adequada e não elimina a necessidade da escovação e do fio dental, acrescenta Xavier.
A recomendação é utilizar a goma como complemento dos cuidados bucais, nunca como substituta.
O açúcar faz toda a diferença
Os especialistas destacam que existe uma diferença importante entre gomas de mascar com açúcar e sem açúcar.
As versões açucaradas favorecem a desmineralização da superfície dos dentes e estimulam o crescimento de bactérias associadas às cáries. Já as versões sem açúcar costumam conter adoçantes como xilitol, manitol e sorbitol, que podem até dificultar o crescimento de algumas bactérias bucais.
Por isso, a recomendação odontológica é priorizar sempre as gomas sem açúcar.
Pode ajudar no mau hálito
Além dos efeitos sobre cáries e placa bacteriana, a goma de mascar também pode contribuir para o controle do mau hálito, destaca a especialista em Halitose e diretora executiva da Associação Brasileira de Odontologia Cláudia Gobor.
Um estudo realizado com 98 jovens adultos encontrou redução média de 17,34% nos compostos sulfurados voláteis, substâncias associadas à halitose, após 15 minutos de mastigação de goma de mascar de menta. Os participantes também apresentaram melhora na avaliação clínica do hálito.
Especialistas observam, porém, que a goma atua principalmente como uma medida complementar e pode mascarar temporariamente alterações do hálito.
Atenção, concentração e produtividade: o que mostram os estudos
Os possíveis efeitos da goma de mascar vão além da boca. Pesquisadores da Universidade de Cardiff realizaram quatro estudos que sugerem que mascar goma pode aumentar o estado de alerta, melhorar a atenção sustentada e favorecer a produtividade durante o trabalho. Participantes relataram menos distrações, menos esquecimentos e melhor desempenho geral nas atividades profissionais.
Outra pesquisa, conduzida pela Universidade de Sydney, observou que estudantes que mascaram gomas durante sessões de estudo obtiveram desempenho superior em testes de terminologia, compreensão e resolução de problemas quando comparados aos participantes que estudaram sem a goma.
Especialistas em odontologia também destacam que estudos recentes têm mostrado associação entre o uso da goma de mascar e melhora da cognição, concentração e aprendizado.
Xavier acrescenta que, além da goma de mascar, existem dispositivos atualmente disponíveis com o objetivo de trabalhar a musculatura bucal e que podem ser prescritos por fisioterapeutas, fonoaudiólogos e dentistas em situações específicas.