Quinta-feira, 09 de julho de 2026

Governo Lula abre caminho para expulsão de suposto espião russo: entenda como funcionava o berçário de agentes a partir do Brasil

O governo brasileiro decidiu expulsar do país Sergei Vladimirovitch Tcherkasov — suposto espião russo preso no Brasil em 2022 — e enviá-lo de volta à Rússia. A medida, contudo, só será cumprida após o fim da pena à qual ele foi condenado no Brasil ou mediante liberação pelo Poder Judiciário. Ainda não há previsão sobre quando a decisão será executada.

Sergei Tcherkasov cumpre pena de cinco anos de prisão por falsidade ideológica em uma penitenciária federal de Brasília.

Ele é apontado pela Polícia Federal (PF) e pelo FBI (a polícia federal americana) como um agente de inteligência russo que usava uma identidade falsa brasileira para atuar no exterior.

No entanto, os investigadores brasileiros e norte-americanos não encontraram evidências de que Tcherkasov atuou como espião contra o Brasil. Seu alvo seriam os Estados Unidos e países europeus. Tcherkasov nega, até hoje, ser um espião a serviço do governo russo.

A expulsão é um ato administrativo de prerrogativa do Poder Executivo que é adotada quando um estrangeiro comete crime em território nacional. Segundo a decisão, após ser expulso Tcherkasov ficará 30 anos proibido de retornar ao Brasil.

O governo russo pede a extradição de seu cidadão desde 2022. A entrega, que já havia sido validada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), dependia do fim de investigações sobre Tcherkasov.

No fim do ano passado, a Justiça Federal e o Ministério Público Federal (MPF) informaram que ele não teria mais nenhuma pendência jurídica que o impedisse de ser extraditado.

A decisão, então, dependia da Presidência da República, já que as entregas em casos de extradição precisam ser deliberadas pela chefia do Poder Executivo ou pelo órgão indicado por ela. Neste caso, o processo de Tcherkasov está sendo conduzido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

A defesa irá encaminhar a decisão do Ministério da Justiça ao STF para que delibere sobre a expulsão. A expectativa é de que caso o Supremo determine a execução da decisão do ministério, Tcherkasov retorne imediatamente para a Rússia.

  Trajetória 

Em abril de 2022, Sergei Tcherkasov foi detido em Amsterdã, na Holanda, quando tentava entrar no país, e enviado de volta ao Brasil. Ele tentava atuar como estagiário no Tribunal Penal Internacional, organismo que julga crimes de guerra e é baseado na cidade de Haia.

A inteligência holandesa e investigações tanto da Polícia Federal quanto do FBI apontaram que Tcherkasov usava uma identidade brasileira falsa e adotava o nome de Victor Muller Ferreira.

De acordo com as investigações da Polícia Federal, não houve elementos apontando que Tcherkasov praticou espionagem contra autoridades, empresa sou instituições brasileiras.

O russo chegou ao Brasil em 2010 e usava o país e sua identidade brasileira como cobertura para atuar no exterior sem despertar as atenções dos serviços de inteligência estrangeiros.

No Brasil, Tcherkasov conseguiu obter documentos como carteira de habilitação, título de eleitor, certificado de reservista e passaporte. Foi com esses documentos que ele conseguiu se passar por estudante e fazer cursos em universidades dos Estados Unidos e da Irlanda.

No Brasil, ele chegou a ser investigado por espionagem, mas o inquérito foi arquivado. Ainda em 2022, ele foi condenado a 15 anos de prisão por falsidade ideológica.

Operação 

Após a prisão de Tcherkasov no Brasil, o governo russo deu início a uma operação diplomática para recuperar o suposto espião.

Em agosto de 2022, o governo da Rússia pediu, formalmente, a extradição de Tcherkasov ao STF. No pedido, as autoridades russas alegaram que Tcherkasov era, na realidade, um traficante de drogas procurado em seu país natal. A informação, no entanto, foi na contramão do indiciamento feito pelas autoridades americanas contra Tcherkasov.

Em março de 2023, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos formalizou uma acusação contra Tcherkasov por crimes como atuação de agente estrangeiro em solo americano sem autorização, fraudes financeiras e com objetivo de obter um visto.

Na acusação, o governo americano afirmou que Tcherkasov é um oficial do Departamento Central de Inteligência e que usava a identidade brasileira para se infiltrar em instituições e obter informações estratégicas como a análise de especialistas em geopolíticas sobre a reação dos países alinhados aos Estados Unidos à invasão da Ucrânia.

Segundo o FBI, Tcherkasov fazia parte de um grupo considerado a elite da espionagem russa, formado por espiões que são enviados a outros países pelo governo russo com a missão de assumir diferentes nacionalidades e personalidades para conseguir acesso a informações de políticos, acadêmicos, instituições e empresas de interesse do governo russo. Esse grupo é conhecido popularmente como “ilegais”. (Com informações da BBC News Brasil)

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