Domingo, 09 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 9 de agosto de 2026
O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, levou a Cali, na Colômbia, uma carta de Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente empossado, Abelardo de la Espriella. A cena repetiu o padrão adotado na semana anterior, quando Vieira foi a Lima, no Peru, com uma mensagem enviada pelo brasileiro a Keiko Fujimori.
Em jogo, a tentativa de Lula de abrir canais de diálogo com novos líderes da direta regional, com as quais possui divergências ideológicas, com um recado de pragmatismo do Palácio do Planalto. E também para se proteger de interferências externas e evitar o isolamento político.
Em Lima, o chanceler entregou a Keiko a carta de Lula e, numa conversa de bastidores, ouviu dela que a relação com o Brasil será prioritária para seu governo. Ela indicou como chanceler um diplomata de carreira, Hugo de Zela, que atuou no cargo como interino e é amigo de longa data de Mauro Vieira.
Mas o governo vê com incerteza a posição de Espriella. Dos novos governantes, ele é o que mais desperta temores. Já anunciou o fechamento de 14 embaixadas e 15 consulados no exterior e o rompimento de relações com Cuba e Nicarágua.
No discurso de posse, na sexta-feira (7), ele prometeu afastar a Colômbia dos “regimes totalitários bolivarianos” e mostrou alinhamento com a política dos EUA, ao falar do combate ao “narcoterrorismo”. A cerimônia reuniu os líderes de direta do continente e prestou elogios à proposta do Escudo das Américas.
Espriella indicou como chanceler o professor universitário Omar Bula Escobar, que trabalhou nas Nações Unidas e se converteu em crítico da organização. O chanceler se diz antiglobalista e, assim como o chefe, é fã de Donald Trump.
Bula costuma espalhar teses conspiratórias e foi vinculado em reportagens do New York Times e do site Politico à difusão de desinformação sobre fraude eleitoral, em 2020, entre os latinos nos EUA.
Segundo o Itamaraty, o vice de Espriella “transmitiu o reconhecimento do governo do novo presidente à atitude de Lula de reconhecer prontamente os resultados eleitorais” e “reiterou a prioridade conferida pelo novo governo colombiano à parceria bilateral”, com foco em economia, comércio e Amazônia.
Vieira mencionou a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) como órgão para articulação, inclusive no combate ao crime organizado, pauta de Espriella, que teria aceitado um convite de Vieira para visitar Brasília.
A Colômbia é o terceiro país mais populoso da América Latina, com 54 milhões de pessoas, e tem a quarta principal economia, com PIB de US$ 450 bilhões. Fontes do governo acreditam que a disputa presidencial colombiana foi uma espécie de laboratório do que poderia ocorrer no Brasil em seguida, pela posição ideológica dos candidatos e a influência da Casa Branca.
Agrado a Trump
Existe no governo brasileiro uma percepção de que Milei tenta se projetar como líder da direita latino-americana – e, por isso, busca o embate com Lula para se projetar e antagonizar com o petista.
Integrantes do governo Lula também veem no comportamento do libertário argentino uma coordenação com Washington e uma forma de agradar a Trump e a seu secretário de Estado, Marco Rubio, mesmo que Milei atue de forma espontânea.
O chanceler de Milei, Pablo Quirno, considera que existem cerca de 12 países de governos alinhados na região e afirmou que Milei pretende promover uma cúpula em Buenos Aires entre eles, assim que a agenda dos líderes permitir.
Longe de atritos
Para o Palácio do Planalto, porém, os presidentes recém-eleitos não enxergam Milei como líder e até agora mantiveram distância dos embates diplomáticos com o Brasil. São listados nessa posição Daniel Noboa (Equador), José Antonio Kast (Chile), Rodrigo Paz (Bolívia) e Santiago Peña (Paraguai).
Mesmo no caso do Paraguai, que teve uma crise diplomática própria com o Brasil por causa de falas de Lula sobre a Guerra da Tríplice Aliança, Peña seguiu a cartilha diplomática para conduzir a contenda, apresentar demandas e falou em “virar a página” e levar em conta a proximidade da eleição presidencial no Brasil, notou um conselheiro de Lula.
Integrantes do governo relatam, até agora, uma posição pragmática desses governantes e esperam que eles continuem a trabalhar com o Brasil “sem contaminação ideológica”.
Apoio
No ano passado, Lula não endossou o questionamento à lisura do pleito equatoriano que reelegeu Noboa, que logo viria ao Brasil e diria admirar o petista. Lula apoiava abertamente a opositora Luisa González, com quem se reuniu antes da eleição equatoriana.
Apesar de ter se desentendido com o chileno Kast sobre a campanha em favor de emplacar a ex-presidente Michelle Bachelet como secretária-geral da ONU, Lula manteve encontros com o presidente conservador, que acaba de despachar para Brasília seu chanceler, Francisco Mackenna, para reuniões de coordenação no Itamaraty.