Sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Mais da metade das pessoas com HIV terá mais de 50 anos pela primeira vez na história

Até 2040, ao menos 20,2 milhões de pessoas com HIV no mundo terão mais de 50 anos, o que vai representar mais da metade da população diagnosticada com o vírus. É o que mostra uma nova projeção feita em um relatório publicado há poucas semanas na revista científica The Lancet HIV.

Em 1996, a infecção se tornou controlável com a chegada da terapia antirretroviral altamente ativa (HAART), conhecida como “coquetel”, pois combinava três ou mais medicamentos contra o HIV — hoje, na maioria dos casos, é administrado um único comprimido diário.

Passados 30 anos, com o uso das terapias antirretrovirais e consequente aumento da expectativa de vida do paciente, o número daqueles que vivem com o HIV por anos também segue em crescimento.

Assim, envelhecer com o vírus já é uma realidade. Américo Nunes Neto, de 64 anos, convive com o HIV há 38 anos. Quando foi diagnosticado, em 1998, o resultado positivo era uma sentença de morte, segundo conta.

— A médica olhou para mim e disse: “Você tem só mais seis meses de vida” — relembra. — Hoje, sei que não sou o HIV. Sou uma pessoa com mais de 60 anos que vive com o HIV. Eu tiro o vírus do centro da minha identidade.

Mesmo tendo vivenciado a perda de seu parceiro há três anos, a vida é algo que Américo redescobre todos os dias, com curiosidade e animação. No seu tempo livre gosta de dançar e assistir a filmes.

Mas ele se considera privilegiado por ter tido acesso a informações e pessoas que o ajudaram logo no início do tratamento. Ativista dos direitos de pessoas com HIV e Aids, seu trabalho é, justamente, ajudar pessoas soropositivas na ONG Instituto Vida Nova.

— Para a maioria das pessoas com HIV de 50 anos ou mais, ainda existe pouco acesso à informação. Muitas vezes essa pessoa consegue tratamento pela saúde pública, mas não está inserida em ONGs ou grupos que possam ajudá-las de outras formas. Então, carecem de orientações práticas sobre o que fazer para envelhecer bem, como exercícios físicos, terapia e senso de comunidade — explica.

Necessidade de mudança

Atualmente, um dos grandes desafios se refere às pessoas com 50 anos ou mais que acabam de ser infectadas ou já convivem com o vírus sem saber. Estudos revelam que esse grupo apresenta um intervalo de tempo maior do que outras faixas etárias para chegar ao diagnóstico e, por isso, demora para iniciar o tratamento. Para aqueles que já desenvolveram a Aids, isso pode ser ainda mais negativo.

A infecção pelo HIV pode passar por diferentes fases, desde a infecção aguda até o estágio avançado, quando pode evoluir para Aids. Essa progressão, porém, não é inevitável: com tratamento antirretroviral adequado, a pessoa com HIV pode permanecer saudável e nunca desenvolver Aids. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), no ano passado, 89% das pessoas diagnosticadas estavam recebendo terapia antirretroviral.

Esse cenário indica a necessidade da mudança do paradigma do cuidado, diz a comissão de pesquisadores de mais de 40 instituições que assinaram o documento publicado na Lancet. O primeiro passo é mudar como se pensa o tratamento.

Quando se leva em consideração a longevidade com qualidade de vida, e não apenas a sobrevivência do paciente, não se pode pensar só no tratamento medicamentoso antirretroviral, segundo as autoras principais do relatório, Amy Justice, da Universidade de Yale, e Keri Althoff, da Universidade John Hopkins.

Por isso, elas pedem que as instituições sigam além: com o monitoramento da idade fisiológica e declínio funcional, assim como minimização do uso de múltiplos medicamentos e a promoção da saúde mental e de um estilo de vida saudável.

As pesquisadoras defendem a mudança de abordagem diante do número crescente de pessoas convivendo com o vírus acima dos 50 anos. Segundo elas, hoje, esses pacientes não têm garantias de que viverão um envelhecimento saudável.

— Esse número está prestes a dobrar nos próximos anos, e 96% dessas pessoas estarão em países de média e baixa renda. Leva tempo para implementar as mudanças que estamos sugerindo. Isso envolve um processo de tentativa e erro; por isso, precisamos começar agora para garantir que eles tenham uma vida plena — defende Althoff.

Cenário brasileiro

Novos dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS, apresentados no mês passado na Conferência Internacional da Aids (AIDS 2026), mostram que o Brasil está entre os 21 países que tiveram um aumento de mais de 20% em novas infecções.

Sandra Wagner Cardoso, pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz e coautora do artigo, pondera que, no caso brasileiro, ainda existem dificuldades no acesso ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS)— como de populações ribeirinhas.

— Aqueles com maior acesso aos cuidados oferecidos pelo SUS conseguem uma sobrevida maior. Então é preciso pensar nessas populações que vivem afastadas dos centros urbanos, e assim, dos centros de referência. Nesse aspecto, cabe mais organização e treinamento, talvez até descentralização do cuidado — opina a infectologista. Com informações do portal O Globo.

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