Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 26 de maio de 2026
A menos de três meses da celebração dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, e em meio à escalada de tensão com o Irã, o presidente Donald Trump busca ampliar sua presença sobre alguns dos símbolos mais conhecidos do país. A imagem do republicano deverá aparecer em passaportes comemorativos, sua assinatura estará em futuras cédulas de dólar e seu governo trava disputas envolvendo arquivos presidenciais, monumentos em Washington e até a narrativa oficial das comemorações nacionais.
O que poderia ser apenas uma agenda comemorativa passou a ser interpretado por especialistas como uma disputa em torno da memória histórica, dos símbolos nacionais e do próprio papel do Estado. Para o historiador Kirk Savage, professor da Universidade de Pittsburgh e pesquisador da relação entre monumentos, espaço público e memória, os episódios recentes fazem parte de uma estratégia mais ampla.
“Definitivamente isso integra uma campanha maior. A administração Trump deixa claro que pretende alterar aquilo que considera uma visão revisionista da história americana”, afirma.
O movimento mais recente foi anunciado em 28 de abril, quando o Departamento de Estado confirmou uma edição limitada de passaportes comemorativos com a imagem de Trump. A iniciativa faz com que a figura do presidente passe a circular em um dos principais documentos oficiais do país. Para Savage, o episódio mostra como “a memória pública nunca é apenas uma questão do passado”.
A disputa também alcança os registros históricos da Presidência. Em 1º de abril, o Departamento de Justiça sustentou, em parecer jurídico, que a Lei de Registros Presidenciais de 1978 seria inconstitucional. A legislação estabelece que documentos produzidos durante o mandato pertencem ao Estado americano, e não ao ocupante temporário da Casa Branca.
Historiadores e entidades de fiscalização recorreram à Justiça para impedir que o entendimento seja usado como base para flexibilizar regras de preservação documental.
A pressão simbólica também chegou ao dinheiro e ao espaço urbano. Em março, o Tesouro americano anunciou que futuras cédulas de dólar terão a assinatura de Trump, rompendo uma tradição de mais de 160 anos em que a moeda levava a assinatura do tesoureiro dos Estados Unidos.
Em Washington, avança ainda o projeto de construção de um arco triunfal de 76 metros. A proposta recebeu aval preliminar de um comitê responsável pela preservação artística e arquitetônica da capital americana, composto por integrantes indicados pelo presidente. A decisão final, porém, caberá ao Comitê de Planejamento da Capital Nacional, previsto para se manifestar nas próximas semanas.
Outra controvérsia envolve a proposta de construção de um novo salão de festas na Ala Leste da Casa Branca, obra estimada em US$ 400 milhões e atualmente alvo de questionamentos judiciais.
Para Savage, parte dessas iniciativas também é marcada por ambiguidades. Segundo ele, ainda há dificuldade em distinguir o que representa um projeto concreto, uma provocação política ou apenas uma estratégia de comunicação.
O historiador afirma ainda que campanhas oficiais de memória podem acabar marginalizando determinados grupos sociais. Como exemplo, cita a reconstrução simbólica da Confederação americana após a Guerra Civil.
“Foi uma campanha massiva que marginalizou a memória negra e a participação da população negra na vida pública”, afirma.
Na avaliação do advogado Daniel Toledo, especialista em Direito Internacional, o principal risco político está em transformar símbolos nacionais em instrumentos de promoção pessoal.
“Dentro dos Estados Unidos, opositores e setores de centro enxergam um padrão de hipertrofia presidencial, em que a nação se torna cenário para a exibição do governante”, diz.
A tensão com o Irã, segundo analistas, altera ainda mais o peso político das celebrações dos 250 anos da independência americana. Para Carlo Patti, professor da Universidade de Padova, o conflito afeta a imagem de força que Trump busca transmitir, especialmente diante da ausência de uma solução clara para a crise.
(Com O Globo)