Quarta-feira, 22 de abril de 2026

O Brasil se torna o novo “queridinho” do FMI

“A casa está cheia”, disse a economista-chefe para América Latina do J.P. Morgan, Cassiana Fernandez, ao cumprimentar o diretor de política monetária do Banco Central, Nilton David, em um painel às margens dos encontros de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI). A frase, quase casual, refletia algo mais amplo em Washington: mais do que a presença de investidores interessados no Brasil, impressionou a forte procura pelos painéis sobre o país – um movimento que tem reforçado a leitura de que os mercados domésticos estão no centro das apostas globais.

De fato, o comportamento dos ativos brasileiros desde meados de março tem consolidado essa percepção. O real se firmou como a moeda de melhor desempenho no ano e a bolsa local tem sido agraciada com fortes aportes de estrangeiros, o que ajudou a alçar o Ibovespa a sucessivos recordes nominais. O mercado de juros, preso às pressões inflacionárias, tem sido o “patinho feio” e mantém um nível elevado de prêmios de risco, que também reflete as incertezas em relação às contas públicas. O quadro fiscal é o calcanhar de Aquiles do país.

Em conversas com participantes do mercado que estiveram em Washington nos últimos dias, a sensação de que o Brasil está no topo das apostas é consensual. “Todo mundo quer”, resume o economista de uma importante asset local.

Essa sensação foi descrita pelo chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America, David Beker, em um relatório enviado a clientes. “O Brasil é o novo ouro?”, indaga o executivo, ao fazer referência ao “trade” de maior consenso dos primeiros dois meses do ano: a compra do ouro. Beker, que fez visitas a clientes ainda antes das reuniões do FMI, observa que os investidores se mantêm confortáveis com a exposição ao real e às ações brasileiras, diante de um cenário global que favorece posições em ativos da América Latina.

“Os clientes que encontramos mencionaram diferentes fatores que tornam a exposição à América Latina atraente: alocação historicamente baixa em ativos da região; região fornecedora de commodities; ambiente de dólar mais fraco; transição política para governos mais à direita”, escreve Beker em relatório assinado com a economista Natacha Perez.

Salta aos olhos, de fato, o movimento do real e das ações brasileiras, especialmente diante de um cenário que também abarca riscos relevantes, como a desconfiança contínua em torno da condução da política fiscal e a eleição presidencial em seis meses.

Já em relação às eleições, o executivo do BofA diz que “os investidores locais parecem estar gradualmente convergindo para a visão dos estrangeiros de que o resultado das eleições não necessariamente geraria uma queda nos ativos brasileiros”. Para Beker, contudo, essa leitura é dependente da manutenção do ambiente de dólar fraco no mundo, já que uma reversão na dinâmica da moeda americana “poderia pressionar ainda mais a inflação e limitar os cortes de juros à frente”, o que também colocaria pressão sobre a trajetória da dívida/PIB.

A agenda do diretor do BC Nilton David fortalece essa percepção: na segunda-feira, foram dois encontros em Nova York com investidores estrangeiros de grandes assets, promovidos por um banco inglês e um suíço. Na terça-feira, já em Washington, houve uma nova audiência, com mais estrangeiros, organizada por outro banco britânico.

“Ouvi um investidor estrangeiro dizendo que ‘o Brasil virou o novo darling’ (queridinho) do mercado. E o que tenho escutado de forma mais estrutural é que esse fluxo para mercados emergentes deve continuar e se intensificar com o fim da guerra no Irã. É um movimento de rotação estrutural para não haver uma concentração tão forte nos EUA e em mercados desenvolvidos no geral”, observa uma economista que esteve em Washington.

Em uma medida do otimismo recente com o Brasil, o J.P. Morgan nota que, dentro do universo dos 53 principais fundos dedicados a mercados emergentes do mundo, o país é aquele que tem o maior número de “overweights” (exposição acima da média) da amostra.

Há 24 fundos com um desvio de pelo menos 2% em relação a seu ‘benchmark’ em sua alocação no Brasil, contra 20 da Coreia do Sul e 11 da China e de Hong Kong. Vale notar que a medida é do fim de fevereiro, o que revela que o sentimento positivo com o Brasil já vinha de antes da guerra e, pelas medidas de fluxo no mês passado, há sinais que o otimismo cresceu.

Na saída dos encontros de primavera do FMI, o otimismo com os ativos brasileiros pode ser coletado de forma prática nos relatórios semanais de bancos estrangeiros. O país teve algum destaque em quase todos e, na prática, é consensual a aposta na valorização do real. (Com informações do Valor Econômico)

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