Quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O canhão e a memória

Há objetos que pertencem a alguém. Outros pertencem a um país. E existem alguns, muito poucos, que parecem pertencer também aos que já morreram.

O canhão El Cristiano, trazido para o Brasil depois da Guerra do Paraguai, é um deles. Por isso, a decisão de entregá-lo ao Paraguai não deveria ser tratada como simples gesto diplomático entre dois governos. Há algo maior nessa história: saber até onde uma geração pode dispor daquilo que recebeu das anteriores.

A história do El Cristiano impressiona. O canhão foi fundido no Paraguai em 1867, em plena guerra. Para fazê-lo, derreteram-se até sinos retirados de igrejas. Daquele bronze nasceu uma peça de cerca de 12 toneladas, empregada na defesa de Humaitá. O canhão acabou nas mãos das tropas brasileiras quando a fortaleza foi tomada. Veio para o Brasil como troféu daquela campanha e aqui permaneceu. Mais de um século e meio depois, integra o patrimônio histórico do país.

A Guerra do Paraguai comporta muitas leituras. O sofrimento imposto ao povo paraguaio foi brutal e não há razão alguma para escondê-lo. Tampouco precisamos transformar a guerra numa narrativa de heróis de um lado e vilões do outro.
Mas reconhecer tudo isso não nos obriga a esquecer como a guerra começou.

Em dezembro de 1864, tropas paraguaias entraram em Mato Grosso. A guerra depois se espalhou. Solano López avançou sobre território argentino e, pouco tempo mais tarde, chegou ao Rio Grande do Sul. Uruguaiana foi ocupada. A guerra, que não começara por decisão do Brasil, estava dentro de nossas fronteiras.

Vieram então os anos de combate e uma conta terrível. Milhares de brasileiros não voltaram para casa. Vários tombaram nos campos de batalha; muitos outros foram vencidos pela cólera, pelas doenças, pela fome e pelas condições brutais da campanha.
É nesse ponto que a discussão sobre um velho canhão deixa de ser uma discussão sobre bronze.

Aqueles homens tinham pais, mulheres, filhos, amigos. Alguns talvez nem compreendessem inteiramente as razões daquela guerra. Mas foram chamados pelo Brasil, vestiram sua farda e morreram sob sua bandeira.

O que devemos a eles?

Edmund Burke deixou uma bela imagem para pensar essa questão. Uma nação não seria formada apenas pelos que estão vivos. Ela reuniria também os mortos e aqueles que ainda nascerão. Somos, portanto, apenas uma geração no meio de uma história que começou antes de nós e continuará depois que partirmos.

Um presidente governa o país por alguns anos. Não é dono de sua História. O El Cristiano atravessou mais de um século e meio. Sobreviveu aos homens que lutaram naquela guerra, ao Império, à República e a governos de toda espécie. Gerações o conservaram até que chegasse às nossas mãos. Não para que fizéssemos dele o que quiséssemos, mas para que o guardássemos e, algum dia, o entregássemos à geração seguinte.

Pode-se dizer que devolver o canhão seria um gesto de amizade com o Paraguai. Compreendo o argumento. Para aquele povo, o El Cristiano também carrega lembranças, sofrimento e identidade.

Mas amizade entre povos não exige que um deles renuncie à própria memória. Podemos lamentar a tragédia vivida pelo povo paraguaio e, ao mesmo tempo, honrar os brasileiros que não voltaram para casa. Uma coisa não exclui a outra. Reconciliação não significa esquecimento.

Um canhão exposto em um museu não precisa celebrar uma guerra. Pode lembrar justamente o absurdo dela. Quem estiver diante do El Cristiano daqui a cinquenta anos talvez pergunte por que ele está ali. E poderá ouvir sobre Humaitá, Mato Grosso, Uruguaiana, os paraguaios mortos, os brasileiros mortos e uma guerra que jamais deveria ter acontecido. É para isso também que servem os museus.

Os mortos não podem protestar contra nossas decisões. Não escrevem artigos, não votam nem reivindicam aquilo que deixaram. Talvez por isso mesmo tenhamos uma obrigação maior de respeitá-los.

Uma nação é feita dos seus mortos, dos seus vivos e daqueles que ainda não nasceram. Nós somos apenas os que estão aqui agora. O Brasil deve cultivar a melhor relação possível com o Paraguai. Deve reconhecer o sofrimento daquele povo e ensinar essa história sem triunfalismos ou ressentimentos. Mas não precisa, para demonstrar amizade, desfazer-se de sua própria memória.

Há coisas que recebemos dos que vieram antes e que simplesmente não estão à nossa disposição, pois a memória não se devolve.

*Amilcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br

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