Segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 17 de agosto de 2026
Platão desconfiava da democracia. E tinha seus motivos. Viu Atenas condenar Sócrates à morte e passou boa parte de sua vida tentando entender como uma cidade capaz de produzir filósofos, artistas e grandes homens públicos também podia tomar decisões tão desastrosas.
Em A República, ele imaginou uma cena curiosa. Um navio está em alto-mar e os marinheiros disputam o comando. Cada um acredita ter o direito de assumir o leme, embora nenhum conheça verdadeiramente a arte da navegação.
Brigam entre si, procuram conquistar o dono da embarcação e desprezam justamente aquele que estudou os ventos, as estrelas e as estações. A pergunta de Platão atravessou vinte e quatro séculos sem perder o incômodo: entregaríamos um navio a alguém apenas porque conseguiu mais votos entre os passageiros?
Em outro diálogo, o Górgias, aparece uma provocação ainda melhor. Imagine um médico sendo julgado diante de crianças e tendo como acusador um confeiteiro. O médico receita remédios amargos, recomenda dieta, corta excessos. O confeiteiro oferece doces. Se coubesse às crianças decidir qual dos dois cuida melhor delas, quem venceria?
Platão não estava falando de eleições como as conhecemos hoje. Estava falando da facilidade com que confundimos aquilo que nos agrada com aquilo que nos faz bem.
Difícil encontrar metáfora mais atual.
Em ano eleitoral, os confeiteiros aparecem por toda parte. Prometem soluções rápidas para problemas antigos, transformam questões complexas em frases de poucos segundos e descobrem, com espantosa habilidade, exatamente aquilo que cada grupo deseja ouvir. Hoje contam ainda com uma vantagem que Platão jamais poderia imaginar: redes sociais capazes de descobrir nossos medos, ressentimentos e preferências e devolver tudo isso na forma de conteúdo político.
O problema é que Platão acertou bastante no diagnóstico e exagerou na receita.
Desconfiado da capacidade popular de escolher bem, imaginou uma cidade governada por filósofos, homens preparados desde cedo para exercer o poder. Parece tentador. Se exigimos formação para pilotar um avião, construir uma ponte ou realizar uma cirurgia, por que não exigir conhecimento extraordinário de quem pretende governar milhões de pessoas?
Há uma dificuldade, porém, que dois milênios de história tornaram impossível ignorar: quem escolheria os sábios? E, principalmente, quem nos protegeria deles quando deixassem de ser sábios?
Karl Popper percebeu o problema. Escrevendo no século XX, depois de assistir à ascensão dos totalitarismos europeus, propôs mudar a pergunta. Talvez o grande problema da política não seja descobrir quem deve governar. Essa procura pelo governante ideal pode acabar justamente na concentração de poder que pretendíamos evitar.
A pergunta mais prudente é outra: como construir instituições que permitam afastar maus governantes sem violência? Vista dessa maneira, a democracia perde um pouco de sua aura romântica, mas ganha enorme força prática. Eleição não é concurso para escolher o homem mais sábio, mais virtuoso ou mais preparado da República. É uma autorização temporária para exercer o poder. E o que torna essa autorização democrática não é apenas a maneira como alguém chega ao governo, mas a certeza de que existe uma data em que poderá ter de deixá-lo.
Platão tem razão quando nos obriga a pensar sobre a qualidade das escolhas populares. Popper tem razão quando desconfia de qualquer pessoa que se apresente como solução definitiva para esse problema. Resta, então, uma responsabilidade que nenhuma Constituição consegue exercer em nosso lugar. A do eleitor.
Talvez tenhamos nos acostumado demais a perguntar quem vai ganhar a eleição e pouco a perguntar por que determinadas pessoas conseguem nossos votos. Escolhemos propostas ou personagens? Comparamos argumentos ou apenas procuramos argumentos que confirmem aquilo em que já acreditávamos? Estamos dispostos a ouvir alguém de quem discordamos? Mais difícil ainda: somos capazes de reconhecer razão no adversário?
Uma democracia habitada por eleitores que só escutam seu próprio lado não precisa de censura para empobrecer o debate. Basta que cada grupo tenha certeza absoluta de que toda virtude está do seu lado e toda estupidez mora do outro. O confeiteiro agradece.
Ele conhece muito bem esse público. Não precisa convencê-lo de quase nada. Basta descobrir qual doce prefere e oferecê-lo na embalagem certa. Talvez, por isso, antes das eleições de 2026, valha menos perguntar quem é o melhor candidato e mais examinar os critérios pelos quais pretendemos escolher. A democracia não nos promete governantes perfeitos. Oferece algo mais modesto e, olhando a história, muito mais precioso: a possibilidade de escolher, fiscalizar, criticar e substituir aqueles que governam.
Platão desconfiava dos marinheiros que disputavam o leme. Popper desconfiava de quem pretendesse ocupá-lo para sempre. Os dois, cada qual a seu modo, deixaram uma advertência que continua atual.
Mas há uma pergunta ainda mais desconfortável, e essa não pode ser respondida por nenhum filósofo: quando foi a última vez que mudamos de opinião sobre política porque um argumento nos convenceu, e não porque gostávamos de quem estava falando? A resposta talvez diga mais sobre a qualidade da nossa democracia do que qualquer pesquisa eleitoral.
*Amilcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br