Domingo, 09 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 9 de agosto de 2026
Hoje é Dia dos Pais. Uma dessas datas que o calendário marca com tinta, mas que a vida escreve no coração.
Em meio a presentes, abraços e lembranças, talvez seja oportuno perguntar: afinal, o que significa ser pai em um tempo no qual a própria ideia de família passa por profundas transformações?
Vivemos uma época de mudanças rápidas. Conceitos que atravessaram séculos são revisitados e novas configurações familiares integram nossa sociedade, todas merecedoras de respeito e dignidade. Isso, entretanto, não impede que se
reconheça o valor da família formada por pai, mãe e filhos e sua dimensão de continuidade entre gerações.
Não é preciso apagar uma luz para que outra possa brilhar.
Talvez esteja aí um dos desafios do nosso tempo: acolher novas realidades sem considerar ultrapassado aquilo que conserva enorme valor humano, social e espiritual.
Para o cristianismo, existe uma imagem poderosa dessa comunhão: a Santíssima Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo.
Três Pessoas e um só Deus. Diversidade sem ruptura. Unidade construída pelo amor.
A Trindade é como uma chama que se divide sem diminuir. Uma vela acende outra e nenhuma perde sua luz porque a compartilhou. Quanto mais a chama se multiplica, mais a escuridão recua.
Há algo semelhante na paternidade.
O pai não entrega ao filho apenas sobrenome ou herança genética. Entrega pedaços invisíveis de si: valores, exemplos, conselhos, silêncios e até imperfeições.
Ser pai é plantar uma árvore sabendo que talvez seja o filho quem descansará à sua sombra. É construir uma ponte sobre um rio que outro atravessará. É segurar a bicicleta enquanto a criança aprende a pedalar e, em determinado instante, ter coragem de soltar as mãos.
O verdadeiro pai não cria filhos para si. Cria-os para o mundo.
E paternidade não se resume à biologia. Existem pais pelo sangue, pela adoção, pela criação e pelo coração. Pai é, sobretudo, presença.
É o porto que não impede o navio de partir, mas mantém o farol aceso para quando precisar regressar.
A sociedade pode mudar — e mudará. As relações humanas podem assumir novas formas. Mas crianças continuarão necessitando de referências, limites, proteção, exemplos e amor.
Na Santíssima Trindade há relação, entrega e comunhão. Também na família ninguém deveria ser uma ilha. Família é arquipélago: pessoas diferentes ligadas por pontes invisíveis.
Neste Dia dos Pais, talvez o melhor presente não esteja dentro de uma caixa. Talvez seja um abraço mais demorado, um telefonema ou aquele agradecimento preso na garganta durante anos. E, para aqueles cujos pais já partiram, resta uma certeza: algumas pessoas deixam a sala, mas nunca deixam a casa da nossa memória.
Há ainda um mistério que somente a paternidade revela por inteiro: quando nos tornamos pais, passamos a compreender melhor os nossos próprios pais. Aquilo que parecia excesso de cuidado, preocupação ou cobrança ganha outro significado. Percebemos quantos medos esconderam para nos transmitir segurança e quantas vezes caminharam atrás de nós apenas para estarem perto caso tropeçássemos.
Ser pai também é voltar a ser filho — mas com outros olhos.
E aqui permito-me tocar meu próprio coração. Foi sendo pai de Maria Laura que compreendi uma nova dimensão do amor e, também, a grandeza daquele que recebi dos que vieram antes de mim.
Os filhos são espelhos voltados para duas direções: quando olhamos para eles, enxergamos o futuro; quando percebemos a imensidão do amor que sentimos, o espelho se volta para trás e nos faz compreender melhor nossos pais. Somos filhos antes de sermos pais e, quando nos tornamos pais, compreendemos melhor o que significou sermos filhos.
A vida, então, completa silenciosamente o seu círculo.
Na fé cristã, encontramos sua expressão maior:
Pai, Filho e Espírito Santo.
Três Pessoas. Uma comunhão.
E o amor como elo eterno entre as gerações.

Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor – castilhosadv@gmail.com – @castilhosadv
Voltar Todas de Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues