Sexta-feira, 01 de maio de 2026

O primeiro trabalho de muitos de nós

Muitos de nós quando criança, mas já grandinhos de 11 ou 12 anos, éramos incentivados de uma forma bem natural a realizar pequenas tarefas domésticas.

Certa vez, em um Natal, o primo Renato e eu ganhamos de nossa avó Cândida um carrinho de mão de madeira.

Os carros tinham as laterais com arabescos recortados em madeira compensada com um diferencial, eram equipados com duas rodas laterais, ao estilo carroça, ao invés de empurrar eram puxados do tipo “tração dianteira”.

Muitos de nós, por conta desta tradição e por iniciativa própria, arrumaram uma maneira de ganhar alguns “pilas”.

O primo Renato, por exemplo, experto, colhia os chuchus no fundo do quintal de sua casa, enchia seu carro com as mercadorias para vender na feira livre no bairro Santana, próximo à sua casa, lembro-me que ele fazia bons trocados.

Muitos de nós e no meu caso em particular entravam para ramo de serviços de transporte que na época era conhecido como carreto.

Estudávamos em escola pública e influenciados por colegas, muitos de nós faziam a feira para ajudar em casa.

A inauguração dos meus serviços foi por convite de colegas e foi de imediato no primeiro sábado, na tradicional feira livre na rua Marcílio Dias, no bairro Menino Deus.

As feiras livres fechavam a rua, as barracas eram montadas no meio-fio com as caminhonetes estacionadas ao lado ou atrás dependendo dos produtos que eram comercializados.

Vendiam de tudo a granel: feijão, arroz, farinhas, óleos e azeites, biscoitos, frutas e verduras, enfim tudo!

Os “carros” de frete ficavam bem no início da feira, local estratégico e conhecido das freguesas.

Cada um de nós tinha o seu carrinho de mão, todo em madeira com uma roda na frente e dois braços “pega mão” e na caixa eram colocadas as compras das freguesas.

Aguardando sentados cada um de nós em seu carrinho o momento da chamada…

Ei, ei guri!! Vem aqui!

A estratégia era socorrer senhoras com muito peso de compras e ajudar a levar até suas casas.

Jamais os serviços eram oferecidos, ficávamos aguardando a convocação.

E pela ordem, lá se ia o freteiro fazer o carreto, sempre na expectativa de ganhar uns trocados.

Ninguém cobrava, a gorjeta era espontânea, a critério da “contratante”, digamos assim.

O movimento do primeiro sábado foi bom, ganhei boas gorjetas e voltei pra casa feliz com o sucesso de ter feito vários fretes.

Contei o dinheiro e orgulhoso entreguei pra minha mãe,

(era o que eu ouvia que os amigos faziam com o dinheiro.)

“Dou o dinheiro pra minha mãe ajudar a comprar as coisas em casa”.

Diziam todos eles.

Era o que tinha que fazer, e fiz!

Minha querida mãe com olhos marejados, disfarçou a emoção, abriu um sorriso e me disse que não havia necessidade.

Me aconselhou juntar um pouco mais para comprar algo que quisesse, sem ter que pedir a ninguém!

Cada ideia tinha minha mãe!

Os serviços mesmo que em tom de brincadeira deixou sequelas em muitos de nós, “sequelas” que nos perseguem até os dias de hoje.

São elas:

Visão de oportunidade através da utilidade ou da necessidade, valor do trabalho e o principal gostar de fazer!

Muitos de nós éramos de família de classe média ou baixa e hoje muitos de nós ainda estamos aqui, pessoas responsáveis e voluntariosas e sem nenhum trauma por causa disso.

E se você é um dos muitos de nós, lembre-se com orgulho do seu primeiro trabalho.

* Rogério Pons da Silva – jornalista e empresário (rponsdasilva@gmail.com)

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