Quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 10 de setembro de 2026
O vai e vem de Andrei Rodrigues no cargo de diretor-geral da Polícia Federal é um sintoma da politização pela qual vem passando o comando do órgão em sucessivos governos.
Ele foi afastado dia 8 pelo ministro André Mendonça, indicado por Bolsonaro, e restituído hoje por Flávio Dino, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No fim do dia, o presidente do STF, Edson Fachin, anulou as duas decisões e manteve o delegado no cargo.
Rodrigues chegou ao cargo depois de ser chefe da equipe de Lula na campanha presidencial de 2022. Tornou-se um dos auxiliares mais próximos de Lula e o seguiu acompanhando em inúmeras missões ao exterior.
Na sua gestão, a PF também intensificou seu papel como uma espécie de instrumento para defender a honra do presidente. Entre 2023 e 2025, o número de inquéritos abertos para esse fim chegou a 20 – o dobro do registrado no governo Jair Bolsonaro.
Próximo demais do poder, apareceu nas mensagens de Daniel Vorcaro com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. “Não dá para acionar o Andrei?”, questionava o ex-dono do Master quando tentava barrar as investigações da PF e do Banco Central.
Também ficou famosa a presença de Andrei num jantar de luxo em Londres promovido pelo banqueiro regado ao caríssimo uísque Macalan.
O mal-estar do diretor da PF com o ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, já vem de longe.
A proximidade do Andrei com Lula levou o ministro a desconfiar que a instituição estava sendo seletiva nas investigações envolvendo o filho do presidente no caso do INSS.
Rodrigues também não confia em Mendonça por ele ter sido indicado por Bolsonaro. Sabemos que, sob sua supervisão, alguns profissionais da PF investigaram e monitoraram ilegalmente o ministro, produzindo um relatório apócrifo e sem valor, o que levou o ministro a afastá-lo.
Agora o diretor-geral foi restituído no cargo pelo ministro Flavio Dino, que atropelou o colega e disse que a medida era essencial para restabelecer as funcionalidades da PF. Literalmente muda o ministro, muda a sentença.
Lula gosta de dizer que garantiu a autonomia da PF depois da gestão Bolsonaro que trocou várias vezes o comando do órgão. O episódio mais marcante foi a exoneração de Maurício Valeixo, quando Bolsonaro admitiu que não deixaria ninguém tocar na sua família.
Ao contrário do que bradam os candidatos de oposição, a PF não está toda contaminada – longe disso. É um dos corpos de elite do serviço público brasileiro, repleto de profissionais que fazem seu trabalho de investigar os poderosos.
A Associação de Delegados da Polícia Federal (ADPF) defende faz tempo autonomia administrativa, financeira e funcional da instituição. Com um diretor-geral ainda escolhido pelo presidente da República, mas com nomes fornecidos por uma lista tríplice e com mandato fixo.
Essas medidas podem não solucionar todo o problema, mas ajudariam o diretor-geral a ganhar autonomia em relação aos arroubos dos políticos que estão no poder. É hora do Congresso Nacional se debruçar sobre esse tema. (Por Raquel Landim/ Estadão Conteúdo).