Quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 13 de agosto de 2026
“O futuro não é mais o que costumava ser”, disse Yogi Berra, numa frase de efeito que traz bom humor para um assunto que pouco tem de engraçado. De fato, prever o futuro, ou melhor dizendo, tentar prever, parece ser uma ocupação que atrai muita gente, de amadores palpiteiros a pesquisadores sérios.
Há cerca de trinta anos, nomes como Alvin Toffler, John Naisbitt e Peter Drucker ocupavam um espaço privilegiado no debate nesse campo. Seus livros figuravam entre os mais vendidos do mundo e influenciavam empresários, governos e universidades. Em uma época sem internet, smartphones ou inteligência artificial, eles ousaram desenhar o mapa das transformações que viriam. Como todo exercício de futurologia, acertaram em alguns pontos, erraram em outros e, principalmente, ensinaram que prever eventos específicos é compreender as forças que moldam as mudanças.
Alvin Toffler, em A Terceira Onda, antecipou a ascensão da sociedade da informação, o trabalho baseado no conhecimento, a personalização de produtos e o declínio relativo da produção em massa. Nesses aspectos, sua visão foi notavelmente precisa. Por outro lado, imaginou que as estruturas políticas e organizacionais se descentralizariam muito mais rapidamente do que ocorreu. O mundo digital fortaleceu indivíduos, mas também concentrou poder em gigantes globais da tecnologia.
John Naisbitt, autor de Megatrends, acertou ao prever a transição da economia industrial para a economia da informação, a globalização dos mercados, a ascensão da China e a crescente valorização da educação. Em contrapartida, acreditou que o avanço da integração econômica produziria um mundo mais harmonioso. O que ocorreu foi quase o oposto. O nacionalismo ressurgiu, disputas geopolíticas ganharam intensidade e o comércio internacional passou a ser utilizado como instrumento de pressão política.
Os erros desses pioneiros revelam um padrão recorrente. É relativamente fácil identificar tendências tecnológicas. Muito mais difícil é antecipar o comportamento humano. As inovações avançam de forma exponencial; as reações sociais, culturais e políticas permanecem imprevisíveis. Nenhum deles imaginou, por exemplo, o impacto das redes sociais sobre a polarização política, a manipulação algorítmica da informação, a pandemia da Covid-19 ou o retorno da rivalidade estratégica entre grandes potências.
Hoje, uma nova geração de pensadores ocupa esse espaço. Ray Kurzweil prevê que a inteligência artificial ultrapassará a inteligência humana em diversas atividades e que a convergência entre biologia e tecnologia ampliará radicalmente as capacidades humanas. Yuval Harari alerta para o risco de que algoritmos passem a conhecer os indivíduos melhor do que eles próprios, concentrando um poder sem precedentes sobre governos e empresas.
Kai-Fu Lee sustenta que a disputa entre Estados Unidos e China pela liderança em inteligência artificial redefinirá a economia mundial. Ray Dalio enxerga um ciclo histórico marcado por elevado endividamento, crescente desigualdade, polarização política e mudança na liderança global. Peter Diamandis, por sua vez, aposta na aceleração exponencial das tecnologias capazes de transformar saúde, energia, alimentação e longevidade.
Apesar das diferenças, todos concordam que a inteligência artificial ocupará, nas próximas décadas, um papel semelhante ao que a eletricidade desempenhou no século XX. Ela deixará de ser apenas uma ferramenta para tornar-se a infraestrutura invisível de praticamente todas as atividades econômicas.
Outra convergência importante é a percepção de que o futuro será cada vez menos definido apenas pela tecnologia e cada vez mais pela capacidade das sociedades de administrarem suas consequências. O desafio deixou de ser inventar máquinas mais inteligentes. Será construir instituições, regras e lideranças suficientemente inteligentes para conviver com elas.
Uma grande diferença entre os futurólogos de ontem e os de hoje é que antes discutia-se principalmente o que mudaria e agora a pergunta central passou a ser como a humanidade reagirá às mudanças que ela mesma está criando.
(Instagram: @edsonbundchen)