Domingo, 19 de julho de 2026

Os voluntários de Jérez del Marquesado

Em março de 1960, um avião da Marinha norte-americana decolou de Nápoles com destino à Base Naval de Rota, na Espanha, com 24 militares a bordo.

Tempo ruim, nevasca, acúmulo de gelo nas asas e falhas nos instrumentos obrigaram um pouso forçado.

Graças à habilidade dos pilotos, conseguiram pousar sobre uma espessa camada de neve em um local plano, próximo das montanhas.

O local é Jérez del Marquesado, um município espanhol da província de Granada, localizado na encosta norte do Parque Natural de Sierra Nevada.

Com a temperatura congelante e vários feridos a bordo, o ambiente era de total incerteza. O piloto e comandante Frank Renigar e outro militar, munidos de coragem e determinação, desceram a montanha em busca de ajuda para o resgate dos sobreviventes.

Depois de 12 km de caminhada, encontraram um posto da Guarda Civil e tentaram explicar o acidente, mas a barreira do idioma dificultava a comunicação. O piloto apelou para uma folha de jornal, dobrou-a como um avião e demonstrou o que havia acontecido.

A notícia se espalhou pelo vilarejo e os moradores compreenderam a gravidade da situação, mobilizando-se para o resgate dos sobreviventes.

Sem tempo a perder, subiram a montanha à noite, com mínimo equipamento, sob forte nevasca e frio extremo.

Os feridos foram transportados em macas improvisadas no lombo de cavalos.

Enquanto isso, mulheres do vilarejo preparavam comida quente, camas para os feridos e material para os primeiros socorros.

O vilarejo todo foi envolvido no resgate, e a ação foi tão intensa que eles próprios nem se deram conta de que eram voluntários.

Graças à rapidez do resgate e à dedicação, todos os 24 militares foram salvos!

Esta foi a melhor “medalha no peito” recebida por esses heróis.

O que sobrou do avião foi doado pela Marinha norte-americana. A fuselagem de alumínio foi vendida, e os recursos foram utilizados para montar o primeiro sistema de abastecimento de água potável da vila.

Com o passar dos anos, a rota de 12 km percorrida pelos socorristas voluntários transformou-se em uma famosa rota turística batizada de “Sendero Solidário del Avión”.

Ainda hoje, partes do avião e da fuselagem decoram varandas de casas como símbolos de orgulho.

O acidente tornou-se um marco na vida dos moradores, pessoas de vida simples, e dos 24 militares norte-americanos, criando laços de amizade em reconhecimento à bravura voluntária.

Em setembro de 2010, na passagem comemorativa dos 50 anos do desastre, a Prefeitura de Jérez del Marquesado organizou uma grande comemoração pública para marcar a data histórica.

Na oportunidade, o governo dos Estados Unidos enviou o embaixador americano na Espanha para representar oficialmente o país nos atos comemorativos.

A cena foi emocionante, repetindo a ação idêntica de 1960, quando o embaixador da época visitou o vilarejo para agradecer formalmente pela vida dos militares.

Alguns dos personagens do episódio estavam presentes: o tenente Frank Renigar, comandante e piloto que desceu a montanha a pé para buscar socorro; o tenente Clifford V. Jensen, copiloto; James Frank Zaio, marinheiro e membro do time militar de basquete; Francis John Rupp, oficial de manutenção de aeronaves; e outros fuzileiros navais.

Os moradores locais Antonio Lorente e Manuel Porcel eram os mais festejados e lembrados por terem se lançado imediatamente na subida da montanha naquela noite sob a violenta nevasca.

O ponto alto da celebração, repleto de nostalgia e emoção pela superação das barreiras temporais e culturais, foi o longo e emocionado abraço de James Frank Zaio no filho do homem que o carregou gravemente ferido montanha abaixo.

Diante de todos os moradores de Jérez del Marquesado, James Frank declarou que aquele acidente e o salvamento significaram um “renascer” em sua vida.

Sobreviventes e resgatadores conversaram longamente sobre detalhes daquela noite, entre risos e lágrimas de emoção, lembrando como dividiram chocolates e pepinos em conserva — era o que tinham disponível para suportar o frio daquela noite que marcou suas vidas.

Ser voluntário é um dom divino, inspirado pela energia do Criador.

*Por Rogério Pons da Silva

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