Quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Para nos fazer presentes – notas e reflexões heterodoxas semanais

Sejamos francos: mentir é uma arte. E tem gente que tem um talento danado para essa birosca. Agora, o respeito pela verdade não pode contar apenas com uma disposição da alma; ele exige uma disciplina zelosa de nossa parte, que deve ser devidamente cultivada diante dos grandes dilemas e, principalmente, nas pequenas questiúnculas do dia a dia. E, é claro, frente aos olhos daqueles que têm grande maestria na arte de mentir, um coração devotado à procura amorosa e abnegada da verdade parecerá uma figura grosseira e desprovida de traquejo social.

Muitas vezes, o indivíduo nutre um certo afeto pela filosofia — ou por um trem fuçado que ele chama por essa alcunha — menos pela procura sincera do conhecimento da verdade para, assim, lapidar a sua alma, e mais — muito mais — pelo simples desejo de sentir-se estimulado de alguma forma.

Diante do estado de decadência em que se encontra a nossa sociedade, é muito fácil — fácil por demais — apontarmos os erros, equívocos e excessos que se fazem presentes aqui e acolá; por isso, é imprescindível que tenhamos a audácia de descrever para nós mesmos o estado putrefato em que nos encontramos, tendo em vista que somos parte da decadência generalizada, e não a cura para esse estado de decrepitude geral.

Nós devemos nos esforçar, todo santo dia, para nos fazer presentes em nossa vida, para que a verdade possa, em nosso dia a dia, nos encontrar, fecundar a nossa alma e purificar o nosso coração.

Em 25 de dezembro de 2017, escrevi em meu diário: a sociedade moderna é toda formada por indivíduos atomizados, reduzidos à total insignificância, que procuram realizar sua humanidade junto da multidão, em meio aos vícios morais e materiais, no consumo tosco e vazio. A cada dia que passa, mais e mais somos devorados pela multidão ideologizada, ou pela multidão consumista, ou por ambas ao mesmo tempo — ou em horários alternados, de acordo com o desgosto do freguês.

Tudo aquilo que fazemos mecanicamente, simplesmente para cumprir um protocolo, com o tempo vai minando a nossa força de vontade. Por isso, é de fundamental importância que, em tudo aquilo que formos realizar, procuremos nos empenhar pra caramba, mesmo que tenhamos uma dúzia de quatis e capivaras nos empurrando para a querência da preguiça; se agirmos assim, ao invés de ferrar com a nossa força de vontade, iremos fortalecê-la e, ao mesmo tempo, robustecer o nosso caráter.

* Dartagnan da Silva Zanela – professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “Um grande monte de pó e sombras”, entre outros livros.

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