Domingo, 30 de agosto de 2026

Presidente do FED, o banco central dos Estados Unidos, diz que a inflação no país está alta demais e sugere aumentar as taxas de juros nas próximas reuniões; cenário tende a tirar fôlego da Bolsa brasileira e a reduzir o espaço para cortes maiores da taxa Selic

O presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos), Kevin Warsh, disse em discurso na tradicional conferência de Jackson Hole, no Wyoming, que a inflação no país está alta demais e sugeriu que o Fed talvez aumente as taxas de juros nas próximas reuniões. Em 12 meses até julho, a inflação americana chegou a 3,7% – a meta oficial é de 2%.

Segundo ele, relatórios recentes sinalizariam uma tendência de queda da inflação, mas “não me indicam que as tendências subjacentes tenham melhorado significativamente”. “Precisamos ter certeza de que a inflação subjacente (o núcleo da inflação) está caminhando em direção à nossa meta, de forma clara e com velocidade suficiente”, disse Warsh. “Caso contrário, temos trabalho a fazer.”

Warsh afirmou ainda que os dados sobre a inflação “são mais preocupantes” do que as tendências no mercado de trabalho, onde a taxa de desemprego está baixa. Ele também argumentou que é improvável que a inflação volte à meta por conta própria. A sinalização de Warsh contraria a exigência que tem sido feita pelo presidente Donald Trump – que indicou o atual dirigente do Fed para o cargo – para reduzir a taxa de juros.

Sua fala também mudou o humor dos mercados e levou os investidores a aumentar as apostas em uma alta dos juros americanos já em setembro, como indicou a ferramenta FedWatch, do CME Group, no final do dia. Pelo indicador, a probabilidade de o Fed alterar as taxas já na sua próxima reunião chegaria agora a 55%; no dia anterior, a perspectiva majoritária, de 64,7%, era de que o BC americano mantivesse os juros estáveis.

O efeito se propagou pelas Bolsas e taxas de juros nos EUA. O Dow Jones caiu 0,02%, enquanto S&P 500 e Nasdaq registraram quedas de 0,25% e 0,52%, respectivamente. Os juros dos Treasuries (títulos públicos americanos) avançaram, com o papel de 10 anos chegando a subir 2,88%. No Brasil, o Ibovespa, principal indicador do mercado local, conseguiu reverter as perdas ao longo da sexta-feira (28) e fechou em alta de 0,3%, aos 175,6 mil pontos. Já o dólar avançou 0,67% frente ao real, cotado a R$ 5,19.

Operadores vêm destacando que os negócios têm sido marcados por números mais contidos em algumas sessões na Bolsa, o que sinaliza a cautela dos investidores em um momento marcado por dúvidas sobre a trajetória dos juros nos EUA, receios em relação às eleições, à agenda fiscal no Brasil e aos embates persistentes no Oriente Médio, com o fechamento do Estreito de Ormuz. Em agosto, o Ibovespa ainda acumula queda de 1,31%.

Histórico

Os presidentes do Fed costumam usar os discursos em Jackson Hole para abordar questões gerais sobre a política de taxas de juros e a economia, ou para sinalizar mudanças futuras em sua abordagem. Em 2022, com a inflação da era pandêmica tendo disparado para 9,1%, o antecessor de Warsh, Jerome Powell, sinalizou que o Fed continuaria a elevar as taxas de juros na luta contra a alta desenfreada dos preços, e reconheceu que tais medidas trariam “sofrimento” aos consumidores e às empresas.

“Warsh reafirmou que a inflação do PCE de 2% continua sendo o objetivo firme do Fed, que as taxas de juros continuam sendo a principal ferramenta de política monetária e que a recente sequência de dados de inflação mais moderados ainda não demonstrou uma melhora significativa nas tendências subjacentes”, escreveu Daniel Siluk, da Janus Henderson, em comentário a clientes.

Juros mais altos nos EUA enxugam a liquidez global, especialmente de mercados considerados mais arriscados. “Hoje (ontem), o presidente do Fed ajudou a pressionar os mercados ao falar que a inflação não está desacelerando como esperado e isso afeta especialmente o Brasil, porque os juros nos EUA são um dos catalisadores para a Bolsa nossa ter fôlego, além do ambiente doméstico e político”, afirmou Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos.

Sobe e desce

Estados Unidos e Brasil vivem momentos diferentes de política monetária. Enquanto os EUA podem passar por uma nova alta de juros em 2026, o Brasil já vem de quatro reduções seguidas da Selic e discute a possibilidade de um corte adicional de 0,25 ponto porcentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada também para setembro.

Segundo William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, esse descompasso tende a reduzir o espaço para cortes maiores da Selic no Brasil. “Além da perspectiva de juros mais elevados nos Estados Unidos, o cenário fiscal brasileiro, especialmente em um ano eleitoral, mantém as expectativas de inflação pressionadas e exige cautela do Banco Central”, afirmou ele. (Com informações de O Estado de S. Paulo)

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