Quinta-feira, 06 de agosto de 2026

Quantos terremotos um regime autoritário aguenta?

Os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram a Venezuela em 24 de junho já deixaram mais de 3.800 mortos e dezenas de milhares de feridos, representando o maior desastre sísmico do país desde 1900 e uma tragédia humanitária que segue se desenrolando enquanto famílias buscam notícias de parentes desaparecidos. O desastre aconteceu seis meses depois de uma operação militar americana capturar Nicolás Maduro e entregar o país a Delcy Rodríguez, aliada do próprio Maduro, numa presidência interina chavista que os Estados Unidos chamam de fase de estabilização.

Desastres naturais têm um histórico de testar regimes autoritários e frequentemente exceder a capacidade deles de sobreviver ao teste. O ciclone que atingiu o Paquistão Oriental em 1970 expôs a incompetência de Islamabad e alimentou o movimento que resultou na independência de Bangladesh. O terremoto de 1972 na Nicarágua e o desvio dos recursos de reconstrução por Somoza, cuja família governava o país havia quase quatro décadas, fortaleceram a oposição que tomaria o poder em 1979. No México, a resposta falha do governo ao terremoto de 1985 corroeu o PRI, partido que governou o país de forma ininterrupta por sete décadas, de dentro para fora e abriu caminho para a redemocratização da década seguinte.

O padrão se repete, porque uma catástrofe natural obriga o Estado a mostrar, de forma imediata e visível para toda a população, se ele existe para servir ao cidadão ou somente para preservar quem está no poder.

A Venezuela parece estar repetindo esse roteiro. Moradores de La Guaira, uma das cidades mais atingidas, relataram que foram vizinhos, voluntários e equipes internacionais, e não o Estado, que removeram escombros e resgataram sobreviventes nos primeiros dias. Nos primeiros momentos, a prioridade oficial recaiu sobre o controle da área, com reforço militar chegando antes das máquinas pesadas para remoção de escombros, uma escolha que moradores e jornalistas locais apontaram como sintoma de prioridades trocadas.

A ONU chegou a estimar até 50 mil desaparecidos, enquanto Caracas divulgava números bem menores, e a imprensa estrangeira, agora com acesso mais livre ao país, registrou o confronto direto de jornalistas com a presidente interina sobre a lentidão do resgate.

Capturar Maduro removeu um homem, mas não a estrutura que ele passou um quarto de século construindo. O Judiciário segue controlado pelo mesmo grupo político, a Assembleia Nacional segue dominada pelo chavismo, e a transição democrática prevista pelos próprios Estados Unidos só deveria se completar entre 2027 e 2028. Um terremoto fez em duas semanas o que seis meses de tutela americana não fizeram: revelou publicamente que o problema venezuelano nunca foi apenas um homem no poder.

A Venezuela segue como uma das três exceções de esquerda, ao lado de Brasil e Uruguai, numa América Latina que se moveu para a direita nos últimos anos, um movimento que ganhou reforço com a eleição recente no Peru e com a influência crescente do governo Trump sobre a região. Mas a pressão que pode reordenar essa exceção talvez não venha de Washington nem das urnas, e sim de forças que nenhum governo consegue controlar. Resta saber se o terremoto vai abalar o chavismo mais do que a prisão de Maduro ou seis meses de tutela americana conseguiram até aqui.

* Henrique Torrescasana Trevisan, economista, sócio da Bateleur e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

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