Quarta-feira, 22 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 21 de abril de 2026
O maior desafio do Banco Central (BC) na política monetária é a desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo. Os sinais recentes não são bons: já houve piora nas projeções para 2028, que ficaram mais distantes da meta, e há indícios de que a tendência continuará.
É pouco provável que isso inviabilize o corte de juros que o Banco Central planeja na reunião da semana que vem, que o mercado aposta que será de 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. Mas poderá limitar o tamanho do ciclo de corte – ou seja, poderemos terminar o ano com uma taxa de juros mais alta do que teríamos com uma maior ancoragem das expectativas.
Quem colocou primeiro o foco nas expectativas de inflação para 2028 fol o presidente do Banco Central, Gabriel Galipolo, mais para o começo do mês. Desde o início da guerra no Oriente Médio, o miolo das projeções dos analistas de mercado para a inflação em 2028 subiu de 3,5% para 3,6%, distanciando-se ainda mais do centro da meta, de 3%.
Em eventos paralelos à reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), o diretor de Assuntos Internacionais do BC, Paulo Picchetti, que acumula a área de Política Econômica, disse que o que preocupa não é apenas a alta da mediana. As projeções do mercado estão mais dispersas, num sinal de incerteza, e pendendo para cima, o que pode indicar uma tendência de piora.
As expectativas de inflação de longo prazo são fundamentais porque, no fim das contas, dão a margem de manobra para o Banco Central acomodar pelo menos uma parte do choque nos preços causado pela guerra sem ter que manter os juros ainda mais apertados.
Num evento do Itaú BBA, Picchetti disse que há um novo “regime” para a política monetária – ou seja, uma mudança na forma como as engrenagens econômicas funcionam – depois da pandemia, das guerras e do tarifaço. Nesse ambiente, argumentou, ficou mais estreita a margem de manobra para um banco central tratar uma alta da inflação como temporária.
A expectativa de inflação de longo prazo é justamente o termômetro que mede essa margem de manobra. Se ela sobe, significa que os agentes econômicos não entendem que o efeito da guerra sobre a inflação será temporário – e essa crença pode se tornar uma profecia autorrealizada.
O que não está claro, por enquanto, é por que os economistas consultados na pesquisa Focus de expectativas de mercado estão colocando uma gordura adicional nas projeções de inflação.
A hipótese mais provável é que, no fundo, o mercado não acredite que o Banco Central será bem-sucedido em garantir que o surto inflacionário associado à nova guerra será temporário. Esse é um problema de credibilidade – que, mesmo antes do conflito, não era plena. (Com informações do Valor Econômico)