Segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 24 de agosto de 2026
Há apenas uma maneira de mergulhar na história de Só Por Uma Noite (One Night Only): aceitar, sem restrições, o conceito que sustenta a trama. No universo do filme, uma lei governamental permite que os solteiros dos Estados Unidos façam sexo antes do casamento apenas em uma data específica, das 19h às 7h. São 12 horas de sexo livre, sem culpa e sem compromisso. Fora desse período, vigora a castidade. Com essa premissa, a abordagem se prestaria a uma distopia de ficção científica, na linha do cult britânico É Proibido Procriar (1972), estrelado por Oliver Reed e Geraldine Chaplin. Mas o tema foi tratado como comédia romântica.
Naquela noite de fornicação consentida, acompanhamos dois personagens. Dono de uma pizzaria, Owen (Callum Turner) é um romântico cuja noiva pede licença para aproveitar a data com outro homem. Já Allie (Monica Barbaro) é uma cantora de jingles insatisfeita com a carreira e com a falta de relacionamentos autênticos. Em puro descompasso emocional, ambos atravessam a madrugada vendo a euforia geral contrastar diretamente com a nuvem de frustração sobre suas cabeças. Sentindo-se na festa errada, o acaso conduz a dupla a um encontro casual pelas ruas. Ao contrário do clichê do gênero, a faísca inicial não acende o fogo de imediato. Ao longo daquela noite de liberação do desejo, eles continuam se cruzando em situações inesperadas e inusitadas, até que o destino escancare a resposta que esteve diante deles o tempo todo.
A direção é de Will Gluck, que em Amizade Colorida (2011), com Mila Kunis e Justin Timberlake, já abordava o tema do sexo sem compromisso. O realizador revisita agora a dinâmica dos desejos casuais e suas consequências nesta fábula moral moderadamente satírica, desenvolvendo a premissa absurda sob uma ótica humanizada e realista. A narrativa evoca o espírito de nonsense da comédia acelerada Depois de Horas, de Martin Scorsese, ao lançar os protagonistas em uma jornada noturna por uma Nova York pulsante, filmada em locações reais. É nesse labirinto urbano, repleto de tipos excêntricos, que o caos da madrugada espelha o desconforto emocional e a aproximação da dupla até o amanhecer.
Para além do mero recurso narrativo, a lei proposta pelo roteiro funciona como divertida provocação à clássica moral puritana americana. Ao burocratizar os afetos, a comédia debocha da mania de agendamento prévio, mostrando que nenhum decreto governamental é capaz de organizar o verdadeiro caos da busca por intimidade genuína. No fim das contas, a grande ironia do filme está em sua recusa em ser o manifesto que poderia ser.
A narrativa aceita a imposição autoritária como dado inquestionável, sem qualquer interesse em debater o controle estatal sobre os corpos. Ao reduzir a norma bizarra a um pretexto para desencadear a desordem urbana, Só Por Uma Noite lembra que o afeto genuíno ainda encontra brechas para acontecer. Contudo, para uma comédia amarrada em premissa tão absurda, o filme comete o pecado mortal de não ousar na transgressão, entregando protagonistas conformados que aceitam passivamente a situação sem qualquer gesto de insubmissão.
* Jorge Ghiorzi – crítico de cinema (jghiorzi@gmail.com)