Segunda-feira, 03 de agosto de 2026

Tecnologia: solução ou escravidão?

Nas últimas décadas, a tecnologia avançou de forma assustadora. Quem tem mais de quarenta anos testemunhou uma transformação que talvez nenhuma outra geração tenha vivido com tanta intensidade.

Basta voltar mentalmente aos anos 80 para perceber o tamanho dessa revolução…

Um simples aparelho que carregamos no bolso substituiu a máquina de escrever, o computador, a câmera fotográfica, a filmadora, o gravador, o walkman, a agenda, o mapa, a calculadora e tantas outras ferramentas. Hoje, por incrível que pareça, até amizades, relacionamentos e conversas são mediados por inteligências artificiais, todos inseridos nesse mesmo cenário.

A tecnologia foi criada para facilitar a vida. E conseguiu. Mas todo avanço cobra um preço quando deixa de ser ferramenta para se tornar dependência.

Muito se fala sobre jovens que utilizam inteligência artificial para fazer trabalhos escolares, comprometendo o desenvolvimento da escrita, da interpretação e do raciocínio lógico. Essa preocupação é válida, mas não foi isso que me levou a escrever esta crônica…

Fui vítima justamente da ausência da tecnologia. Tenho baixa visão e, por isso, faço praticamente tudo pelo celular. Com um bom par de óculos, produzo campanhas de marketing, elaboro projetos, organizo documentos, escrevo roteiros e minhas crônicas para o Jornal O Sul. Também administro minha rotina pessoal e profissional. Curioso pensar que minha vida inteira cabe dentro daquele pequeno aparelhinho…

Ou, mais precisamente, dentro do WhatsApp. Ali estão meus contatos, minhas anotações, meus rascunhos, documentos, projetos, ideias para programas, textos em andamento e inúmeras informações acumuladas ao longo dos anos.

Quantas vezes pensei em fazer um backup? Muitas. Quantas vezes adiei? Quase todas…

Hoje, ao adicionar novos participantes a um grupo de trabalho, o sistema interpretou minha ação como suspeita e bloqueou temporariamente minha conta para análise. É, o sistema…

De repente, percebi que boa parte da minha vida estava inacessível. Foi então que aconteceu algo curioso…

Enquanto aguardava a resposta do algoritmo, que respondeu que só voltaria a normalizar os serviços em 24 horas, fui até a janela do meu quarto. Peguei uma xícara de café, acendi um cigarro e fiquei observando a noite.

Sem notificações, sem mensagens chegando a todo instante, sem aquela obrigação silenciosa de responder imediatamente.

Naquele momento compreendi um paradoxo interessante: a tecnologia nos libertou de dezenas de objetos, mas talvez tenha aprisionado nossas mentes em apenas um…

O celular deixou de ser apenas um telefone. Tornou-se uma extensão da nossa memória. Não carregamos somente um aparelho no bolso; carregamos compromissos, fotografias, documentos, amizades, projetos e parte da nossa própria identidade existencial.

Isso me fez lembrar do filme de animação WALL-E, onde os seres humanos viviam completamente dependentes da tecnologia. Um mundo onde eles não caminhavam, quase não conversavam e não percebiam o mundo ao redor. É uma crítica exagerada, mas que nos obriga a pensar.

E se um dia tudo falhar? Um apagão, um desastre tecnológico, um acidente que nos deixe isolados ou qualquer situação extrema. Saberíamos viver sem aplicativos? Encontrar um caminho usando um mapa e uma bússola? Construir um abrigo? Resolver problemas sem recorrer imediatamente à internet?

Eu aprendi essas coisas. Vivi a transição do mundo analógico para o digital. Talvez por isso saiba que perder meus arquivos seria um enorme transtorno, mas jamais o fim da minha história. Recuperaria tudo, ainda que levasse meses.

Não sou contra o progresso. Pelo contrário. Continuarei usando celular, internet e inteligência artificial, porque tornam meu trabalho melhor e mais eficiente.

O que realmente me preocupa são as novas gerações. Muitos nasceram em um mundo onde quase toda experiência passa por uma tela. E a culpa não é deles.

É nossa, que muitas vezes ensinamos a usar a tecnologia, mas esquecemos de ensinar a viver sem ela. Você já parou para pensar que nunca jogou bola com seu filho, eu não estou falando de chutar a bola um para o outro, imagina ir até um campinho com ele jogar com outras crianças, levá-lo para pescar, acampar, ensinar coisas que você aprendeu ou, no mínimo, colocá-lo numa escola de escotismo ou algo que o prepare para o mundo além da tecnologia…

Ao longo dos anos, eu fui envolvido pela mesma tecnologia, pelo mesmo conforto e pelas oportunidades que todos nós tivemos, mas naquela noite silenciosa, olhando a fumaça subir enquanto o café esfriava na xícara, percebi algo importante: a tecnologia deve ser uma excelente empregada, jamais a dona da nossa vida.

Porque, no dia em que ela falhar, quem precisará continuar funcionando seremos nós… E lamento muito informar, mas não existe aplicativo capaz de nos substituir. Quando tudo falhar, não haverá algoritmo que resolva. Você terá de recorrer ao seu próprio “algo-rítimo”: a inteligência, a criatividade e o instinto de sobrevivência…

* Fabio L Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

O tecido social diante da ruptura
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play