Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Argentina, Uruguai, China e Estados Unidos: a estratégia de Lula ao escolher destinos para visitas no início do mandato

Antes mesmo de tomar posse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia anunciado sua intenção de escolher a Argentina como seu primeiro destino oficial no exterior. Ele deve desembarcar em Buenos Aires na segunda-feira (23) para participar da reunião de cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) na terça (24).

O Brasil voltou a integrar o bloco regional, composto por outros 32 países, após dois anos fora do grupo. Lula também tem encontro marcado com o presidente argentino, Alberto Fernández. Em seguida, parte para Montevidéu, onde também já estão programadas reuniões bilaterais com o presidente do Uruguai, Luis Alberto Lacalle Pou, e outras autoridades locais.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já anunciou que o petista deve visitar também, nos três primeiros meses de governo, Estados Unidos e China — os dois principais parceiros comerciais do Brasil atualmente.

Para a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC Paulista (UFABC), Tatiana Berringer, as escolhas de destinos iniciais de um novo presidente costumam ser indicativas de sua estratégia de política externa.

“Quando Lula anuncia seus primeiros destinos, ele já expõe ao mundo o que planeja para seu governo”, diz.

“E é importante lembrar que o Lula já tem uma viagem para Portugal sendo preparada para abril, ou seja, a Europa também está na lista de prioridades, assim como a negociação do acordo entre União Europeia e Mercosul.”

Mercosul

É tradição que o país vizinho seja escolhido por novos presidentes para as primeiras viagens oficiais. Mas, segundo analistas, a decisão de Lula de estrear sua agenda internacional com a ida à Argentina simboliza antes de tudo uma clara mudança de rumo nas relações entre as duas nações — e entre Brasil e América do Sul de forma geral.

“A escolha aponta para uma percepção do caráter estratégico das boas relações com os vizinhos e para a intenção de resgatar os laços — com a Argentina em especial, tendo em vista o relacionamento conflituoso entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e [o presidente argentino] Alberto Fernández”, diz Tatiana Berringer.

Para Feliciano Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) e diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o Brasil tem muito a ganhar economicamente com a reaproximação, já que a Argentina está entre os três principais destinos das exportações nacionais.

“A sintonia entre Fernández e Lula pode dar mais força para negociar a fase final do acordo entre União Europeia e Mercosul”, diz.

Assim como na viagem à Argentina, os especialistas veem a visita ao Uruguai como parte de uma estratégia de reaproximação regional.

“Há sempre uma demanda por garantir a permanência do Uruguai — assim como a do Paraguai — no Mercosul, porque são países mais voltados para a exportação agrícola e podem ser mais ‘assediados’ pelas grandes potências”, diz Tatiana Berringer.

China e EUA

Já a escolha de China e Estados Unidos como prioridades simboliza a intenção do novo governo de manter relações produtivas e pragmáticas com ambas as potências, que atualmente travam uma disputa por influência política, econômica e militar em algumas regiões do globo.

“Estamos cada vez mais atuando em um mundo bipolar, causado pela piora da relação entre Pequim e Washington. Então demonstrar logo no início que o Brasil manterá relações produtivas com os dois polos de poder me parece uma estratégia muito sensata”, avalia Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Esse estilo político pode abrir as portas para um intercâmbio interessante entre o Brasil de Lula e os Estados Unidos de Joe Biden. Segundo Sá Guimarães, temas que podem beneficiar os dois lados são meio ambiente e defesa da democracia — pautas que ambos os presidentes têm demonstrado interesse em desenvolver.

“As relações do governo Bolsonaro com os Estados Unidos não eram das melhores desde que Joe Biden assumiu a Presidência. E é curioso notar que as últimas autoridades americanas que visitaram o Brasil antes do novo governo deram muita ênfase à necessidade de preservar a democracia e não questionar o resultado das eleições.”

Já quando se trata da China, existem setores poderosos absolutamente interessados na manutenção de boas relações com o país, como é o caso do agronegócio e da mineração.

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