Quinta-feira, 30 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 30 de abril de 2026
Uma revisão publicada na revista científica Nature Medicine reúne evidências recentes sobre a doença de Alzheimer e aponta um avanço promissor: biomarcadores sanguíneos podem identificar sinais do processo patológico décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas clínicos.
Na prática, isso indica a possibilidade de detectar alterações biológicas associadas à doença com até 20 anos de antecedência. O levantamento, que incluiu grupos com alto risco genético, destaca o papel de marcadores como o p-tau217, proteína ligada à formação de placas no cérebro, característica do Alzheimer.
Segundo o neurologista Eli Faria Evaristo, do Hospital Sírio-Libanês, esses exames podem contribuir para a organização do cuidado. “Os biomarcadores sanguíneos podem melhorar a triagem e o encaminhamento para confirmação por exames como o PET amiloide ou a análise do líquor”, afirma.
Apesar do avanço, especialistas alertam que a detecção precoce das alterações biológicas não equivale a um diagnóstico clínico antecipado. O patologista clínico Helio Magarinos Torres Filho, diretor do Richet Medicina & Diagnóstico, defende cautela. Para ele, o principal ganho está em “identificar o processo patológico mais cedo, acompanhar sua progressão e, em contextos específicos, apoiar a investigação diagnóstica”.
Evaristo reforça que não há recomendação para o uso desses biomarcadores como triagem em pessoas sem sintomas. “Antecipar um diagnóstico em indivíduos cognitivamente intactos pode gerar ansiedade, estigma e dilemas de privacidade”, avalia. Além disso, ainda não há evidência robusta de que intervenções muito precoces previnam a demência.
uso mais indicado
Segundo especialistas, o maior benefício atualmente é para pessoas com queixas cognitivas, como falhas de memória persistentes ou sinais de comprometimento cognitivo leve. “Os biomarcadores fazem mais sentido quando há suspeita clínica”, explica Evaristo.
Nesses casos, o exame pode funcionar como triagem inicial: resultados negativos ajudam a afastar o Alzheimer como causa provável, enquanto resultados positivos indicam a necessidade de confirmação por métodos mais específicos.
Para indivíduos assintomáticos, a recomendação segue sendo de cautela, já que não há comprovação de que tratar com base apenas nesses marcadores evite a progressão da doença.
tratamento e limites
Os especialistas ressaltam que o biomarcador não substitui a avaliação clínica completa. O resultado deve ser analisado em conjunto com o histórico do paciente, testes cognitivos e a presença de sintomas.
Medicamentos como lecanemabe e donanemabe são indicados apenas para fases iniciais sintomáticas, como comprometimento cognitivo leve ou demência leve. O uso exige critérios rigorosos e acompanhamento por imagem, devido a possíveis efeitos adversos, como inflamações ou pequenos sangramentos cerebrais.
“Um biomarcador positivo pode ajudar a planejar o cuidado, mas não deve ser interpretado isoladamente como indicação automática de tratamento”, afirma Torres Filho.
Os especialistas também alertam que a presença desses marcadores não significa que a pessoa desenvolverá demência. O geriatra Leonardo Oliva, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, destaca que há indivíduos que envelhecem com biomarcadores positivos e nunca apresentam a doença.
Ele ressalta ainda a importância de controlar fatores de risco modificáveis, como pressão arterial, diabetes e colesterol, além de hábitos como evitar tabagismo, consumo excessivo de álcool, cuidar do sono e reduzir o estresse — medidas que podem contribuir para prevenir parte dos casos de demência.