Domingo, 09 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 8 de agosto de 2026
O uso de canetas emagrecedoras é um cenário distante para muitos brasileiros obesos que têm indicação para fazer esse tipo de tratamento. O acesso às principais tecnologias contra a doença esbarra na desigualdade social, que faz com que muitos desistam do tratamento ou recorram aos perigos do mercado ilegal.
Um levantamento da empresa de pesquisas NielsenIQ Brasil, divulgado em abril deste ano, mostrou que as canetas emagrecedoras estão presentes em cerca de 5% dos lares brasileiros — número que especialistas consideram baixo. Destes, 84% têm um impacto alto ou moderado no orçamento mensal por causa desses medicamentos.
Os dados mais recentes do levantamento Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que 25,7% dos adultos brasileiros enfrentam um quadro de obesidade. A doença pode causar outros problemas de saúde, como diabetes, câncer e dificuldades cardiovasculares.
Os remédios antigos costumavam ter ação que levava à perda de 5% a 10% do peso corporal. Com os medicamentos que simulam o GLP-1 (como Wegovy e Ozempic), esse índice pode chegar a 17%. Ou até 22%, no caso da tirzepatida (Mounjaro), que atua simultaneamente com os receptores hormonais intestinais GLP-1 e GIP.
Os números são considerados animadores por especialistas. Mas, em muitos casos, a tecnologia não chega àqueles que realmente precisam dela para ter qualidade de vida.
O tema gera preocupação mundial, pois o custo elevado desses medicamentos não é uma realidade somente brasileira, afirma o endocrinologista Paulo Miranda, coordenador do Departamento Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SEBM).
“Isso é motivo de debate nas sociedades científicas em todo o mundo. Esse problema gera uma disparidade de atenção à saúde. É preciso haver a inclusão dessas medicações dentro de um custo aceitável para o público que pode se beneficiar desses tratamentos”, diz Miranda.
Até o momento não há nenhuma caneta emagrecedora disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). O Ministério da Saúde afirma que está empenhado em mudar esse cenário.
O custo do tratamento
Nos últimos meses, alguns desses tratamentos começaram a ficar mais baratos após a queda da patente da semaglutida (usada em remédios como Wegovy e Ozempic). Isso abriu espaço para que empresas brasileiras pudessem fabricar suas versões dos remédios a um custo menor.
Em junho, as farmácias receberam a primeira caneta emagrecedora brasileira feita com o princípio ativo, a Ozivy, produzida pelo laboratório EMS. Na quarta-feira (29), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou os registros de outros cinco novos medicamentos à base de semaglutida.
O Ministério da Saúde diz, em nota à reportagem, que pediu prioridade à Anvisa “no registro de medicamentos com os princípios ativos semaglutida e liraglutida, destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2”.
Ainda segundo a pasta, “com a entrada de genéricos no mercado e o aumento da concorrência, os preços devem cair de forma significativa”.
Já a tirzepatida (Mounjaro), medicamento mais moderno, que simula os hormônios intestinais GLP-1 e o GIP, continua com os valores altos. Os tratamentos com esse princípio ativo, que só deve perder a patente daqui a cerca de uma década, partem de R$ 1,5 mil e chegam a R$ 3 mil por mês.
Com mais opções no tratamento com a semaglutida, os remédios que usam esse princípio ativo ficaram mais baratos. Especialistas falam em uma queda de até R$ 1 mil mensais para alguns tipos de tratamentos com esse material, quando comparados ao período anterior à queda da patente.
No entanto, esses custos menores ainda representam um alto impacto financeiro para a imensa maioria dos brasileiros. “Nem todo paciente tem esses valores para incluir nos gastos mensais”, diz a endocrinologista Rachel Teixeira.
E como a obesidade tende a ser mais grave nas populações mais vulneráveis, as canetas emagrecedoras não resolvem os problemas atuais, pontua Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Elas são inacessíveis para essas pessoas”, diz.
Os especialistas ressaltam que o problema social da obesidade fica evidente também no perfil das pessoas que costumam ter mais acesso a esse tipo de tratamento.
“Os estudos já mostram que a maioria dos usuários dessas tecnologias são aqueles sem indicação terapêutica”, afirma Gualano.
“Muitos estão usando para chegar ao que a gente chama de emagrecimento social, que é a pressão para reduzir o peso”, observa Teixeira. Com informações do portal G1.