Sexta-feira, 01 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 1 de maio de 2026
Há algumas questões que deveriam ser consideradas centrais quando o assunto é a educação, mas que, na época em que vivemos, acabam sendo varridas para debaixo do tapete da vida. A primeira delas é, conforme nos ensina a professora Inger Enkvist, que o aprendizado — pouco importa do que seja — exige o esforço de quem pretende aprender, o qual deve comprometer-se por inteiro naquilo que está executando para realmente fazer-se presente; e esse esforço pressupõe uma consequente mudança na personalidade do sujeito como nos ensina Hugo de São Vitor.
Sua atitude diante da vida, frente a si mesmo e perante os estudos deve, gradativamente, levá-lo a transubstanciar-se da água para o vinho, deixando as atitudes dispersivas para trás e centrando-se em novas ações de forma responsável.
Um detalhe que muitíssimas vezes é desdenhado é o fato de que o aprendizado — repito, de qualquer coisa — não existirá se este não levar o aluno a sofrer uma transformação tangível porque o aprendizado, seja do que for, presume a conquista, a realização de metas de curto, médio e longo prazo.
Tomemos como exemplo as artes marciais, a música e o aprendizado de uma língua estrangeira. Me digam uma coisa: um karateca pode tornar-se um faixa preta (primeiro dan) sem dominar com o mínimo de maestria as técnicas exigidas? Não. Ele pode passar de uma faixa para outra se não atingir o desempenho que é exigido para alcançar a nova graduação? Novamente, não. Um guitarrista pode ser considerado um músico se não tiver as habilidades mínimas indispensáveis para executar algumas músicas? Outra vez, não. Por fim, uma pessoa que não é capaz de ler uma obra em uma língua estrangeira e manter uma conversação com um nativo desta pode ser considerada um indivíduo fluente? Mais uma vez, não.
Porém, todavia e entretanto, toneladas e mais toneladas de estudantes, todos os anos, obtêm a devida certificação de conclusão do Ensino Médio e do Fundamental detendo apenas algumas noções rudimentares daquilo que deveriam saber com um mínimo de razoabilidade; e a isso, em nosso triste país, dá-se o nome de educação.
Os apressadinhos, de forma assanhada, rapidamente preparam as suas pedras gastas para atirar e responsabilizar os professores — e sim, estes, como todos, têm a sua cota de responsabilidade —; entretanto, é importante lembrar que essa farra de aprovação a torto e a direito não é algo realizado porque os docentes assim desejam, mas sim porque autoridades, preocupadas fundamentalmente com números vistosos, que tenham um apelo publicitário garboso, o exigem.
E como a transformação do aluno, que é o cerne da educação, não é algo que possa ser reduzido a numerozinhos pomposos, ela acaba sendo desdenhada e, em seu lugar, termina sendo colocado algum slogan pomposo, como “protagonismo juvenil”, que soa bonito, mas não quer dizer muita coisa.
Ora, por mil raios e trovões, como é possível falar em protagonismo quando todo o sistema educacional induz os alunos a agirem de modo inconsequente? Isso mesmo. Um sistema que permite a qualquer um avançar de uma etapa para outra no jogo escolar está, de forma sutil, ensinando o quê para as tenras gerações? Que nada tem consequência, que eles podem fazer o que quiserem e que “essa é toda a lei” — apesar da quantidade mastodôntica de leis de que dispomos em nosso triste país.

(Dartagnan da Silva Zanela, professor e autor de “A Quadratura do Círculo Vicioso”, entre outros livros)