Quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Jejum intermitente: o que os influenciadores não te contam e o que a ciência ainda não sabe

A cada poucos meses, ao que parece, surge uma nova rodada de debates sobre os benefícios do jejum intermitente.

Essa dieta popular, que pode assumir diferentes formas, envolve jejuar em determinados dias da semana ou restringir a alimentação a certas horas do dia. O jejum intermitente ganhou fama de facilitar a perda de peso em comparação com a redução convencional de calorias. Mas seus alegados benefícios iriam muito além disso e incluiriam, por exemplo, a redução do risco de câncer e de declínio cognitivo. Não surpreende que esse regime tenha se tornado tão popular.

Evidências recentes, no entanto, levantaram questionamentos sobre a solidez dessas alegações sobre benefícios. A depender do estudo, o jejum intermitente pode se mostrar mais ou menos eficaz do que outras dietas.

Um estudo chegou a sugerir que a prática pode ser prejudicial, por aumentar o risco de doenças cardiovasculares.

Os cientistas nem sempre concordam sobre todos os fatos, disse Krista Varady, professora de nutrição da Universidade do Illinois em Chicago, nos Estados Unidos, muito menos os influenciadores. “Não é mágica”, disse Varady.

Será que o jejum intermitente foi superestimado? Ou é uma dieta promissora, capaz de acrescentar anos às nossas vidas? E por que as evidências têm sido tão inconscientes?

Segundo muitos pesquisadores, o maior obstáculo para tornar os dados mais sólidos é também o mais difícil de resolver. “Não temos ideia do que as pessoas realmente estão comendo”, diz Varady, da Universidade do Illinois. E isso vale para muitas outras intervenções alimentares, se não para todas.

O jejum intermitente busca reproduzir a forma com que nossos ancestrais evoluíram ao se alimentar. “Nós não evoluímos em um ambiente em que fazíamos três refeições por dia e ainda comíamos dois lanches”, disse Mark Mattson, neurocientista cujo trabalho na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos EUA, foi fundamental para o desenvolvimento dessa área de pesquisa.

O jejum faz com que o metabolismo deixe de queimar primeiro o açúcar, um processo conhecido como glicólise, e passe a queimar a gordura que circula no sangue. Essa mudança metabólica muda o comportamento celular. As células saudáveis começam a reciclar proteínas desgastadas e danificadas, um processo chamado autofagia, que tem o efeito de rejuvenecê-las.

Em teoria, isso se traduz diretamente nos benefícios de saúde atribuídos ao jejum. Em uma revisão influente publicada na revista científica New England Journal of Medicine, Mattson, da Universidade Johns Hopkins, amarra essa mudança metabólica ao aumento da longevidade e a uma menor incidência de doenças, incluindo diabetes e câncer.

Há apenas um problema. As evidências mais robustas para essa narrativa vieram de estudos com camundongos, moscas e vermes. Para esses animais, o jejum intermitente se mostrou uma solução milagrosa. Os camundongos podiam consumir a mesma quantidade de calorias que outro grupo, que se alimentava à vontade, mas, desde que o período diário destinado à alimentação fosse restrito, eles permaneciam magros e saudáveis até a velhice, enquanto os demais se tornavam obesos e doentes.

Infelizmente, as evidências obtidas em estudos com seres humanos têm sido menos conclusivas.

Considere os efeitos sobre a obesidade. Dependendo do tipo de jejum intermitente, “ele provoca uma perda de peso de cerca de 5%” em seres humanos, diz Varady, da Universidade do Illinois.

Isso é “tão eficaz quanto qualquer outra estratégia de dieta”, afirma, mas as evidências em humanos ainda não reproduziram os resultados expressivos observados em camundongos (ou relatados em depoimentos nas redes sociais).

Mesmo uma pequena perda de peso provocada pelo jejum intermitente pode, sem dúvida, trazer benefícios metabólicos.

“Há algumas reduções nos marcadores de risco metabólico”, diz Varady, entre eles o colesterol e a pressão arterial. A prática parece até reduzir os sintomas da síndrome dos ovários policísticos, que em 2026 passou a ser oficialmente chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).

Segundo Varady, quanto menos saudável uma pessoa estiver no início da intervenção, maiores serão os benefícios para a saúde. Mas, também nesse caso, eles tendem a ser menos pronunciados em seres humanos do que os observados em camundongos.

Além disso, formas mais intensas de jejum intermitente, como se alimentar em dias alternados, por exemplo, podem piorar a saúde metabólica ao provocar perda de massa corporal magra.

Uma história familiar aparece nas alegações sobre melhora da cognição: há uma diferença perceptível entre os dados obtidos em camundongos e os obtidos em seres humanos. As pesquisas sobre o câncer também apresentam resultados contraditórios. Estudos com animais haviam associado o jejum intermitente à prevenção do câncer e a uma maior capacidade de suportar os efeitos tóxicos da quimioterapia. Mas um importante estudo sobre o mecanismo que havia funcionado em camundongos não obteve o mesmo resultado em seres humanos.

Os pesquisadores haviam desenvolvido uma dieta especial destinada a reproduzir a resposta biológica ao jejum intermitente prolongado.

Em tese, ela tornaria as células saudáveis mais resistentes e, ao mesmo tempo, enfraqueceria as células cancerosas. No entanto, os participantes não chegaram a apresentar essa mudança metabólica pretendida. Com informações da BBC News.

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