Sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 17 de setembro de 2026
O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já destinou R$ 269 bilhões a programas, benefícios, subsídios e outras medidas em 2026, segundo o Gastômetro, ferramenta do Estadão que acompanha os desembolsos do governo federal em ano eleitoral. O valor foi atualizado após o anúncio do reajuste do Bolsa Família, em setembro.
Em julho, durante discurso no Rio Grande do Norte, Lula criticou as restrições impostas pela legislação eleitoral e classificou a lei como “Papagaiada desgraçada”. As regras estabelecem limitações para governantes em período eleitoral, incluindo a concessão de determinados benefícios, a realização de doações, o pagamento de emendas parlamentares e a participação em inaugurações de obras.
Segundo o levantamento do Estadão, a maior parcela dos valores contabilizados está relacionada a programas de crédito e subsídios destinados a setores da economia e categorias específicas, como motoristas de aplicativo e caminhoneiros. Também entram na conta isenções e financiamentos voltados à aquisição da casa própria.
O levantamento considera ainda renúncias de receitas, que reduzem a arrecadação da União, como a isenção e o desconto do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 7 mil mensais. Também são contabilizados benefícios sociais e programas que tiveram ampliação, entre eles o Bolsa Família, o Pé-de-Meia e o Gás do Povo, além de despesas com publicidade institucional.
Entre as iniciativas consideradas pelo Gastômetro estão ainda modalidades do Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas que utiliza recursos de fundos nos quais a União possui participação, e o Luz do Povo, que prevê gratuidade de energia elétrica para famílias de menor renda, com os custos pagos pelos demais consumidores.
O valor registrado pela ferramenta pode mudar ao longo do ano, à medida que novas despesas são autorizadas. Entre as medidas incorporadas ao cálculo estão a ampliação da subvenção da gasolina e do diesel e o reajuste do Bolsa Família.
A economista Selene Nunes, ex-secretária de Fazenda de Goiás e uma das autoras da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), afirmou que a criação de novos programas, subsídios e benefícios reduz o espaço fiscal e pode ampliar o endividamento público.
“A contabilidade fiscal pode mudar conforme o instrumento escolhido, mas o custo econômico não desaparece. Se o governo concede subsídio, assume risco ou se endivida, alguém paga essa conta — hoje ou no futuro”, afirmou.
Segundo Nunes, medidas de crédito com juros subsidiados também geram custos fiscais, relacionados à equalização das taxas, ao custo de oportunidade dos recursos públicos e aos riscos assumidos pelo governo.
Daniel Couri, consultor de orçamentos do Senado Federal, afirmou que o cenário indica dúvidas sobre a condução do ajuste fiscal. “Vejo um certo otimismo com 2027, como se algum tipo de ajuste fosse inevitável, mas as chances de uma recessão só aumentam e, quando isso acontecer, como o governo irá se comportar? Não duvido que intensifique os incentivos, dobrando a aposta.”
Em estudo do Insper, os economistas Marcos Mendes e Sergio Firpo também questionaram argumentos do governo sobre transparência, uso de recursos para abatimento da dívida e eficácia das medidas.
“Nenhum desses três pontos se sustenta, e essas operações são basicamente uma forma de contornar os limites das regras fiscais, fazendo-se políticas públicas pela via financeira, sem impactar as contas primárias”, diz o estudo.
O governo, por meio da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), contestou a metodologia do Gastômetro e negou que os valores representem gastos destinados à reeleição.
Em nota, a Secom afirmou que é “descabida e metodologicamente insustentável” a tentativa de classificar como eleitorais políticas públicas com diferentes objetivos e fontes de financiamento. Segundo o governo, as medidas são destinadas a manter jovens na escola, combater o crime organizado, proteger empregos e empresas, conter pressões sobre preços e enfrentar calamidades.
A secretaria também citou o Pé-de-Meia, criado em 2024 para combater a evasão escolar, e o Programa Brasil Contra o Crime Organizado. Segundo a nota, parte dos valores classificados pelo levantamento corresponde a linhas de crédito e não a recursos já desembolsados.
Para o governo, medidas relacionadas à proteção da economia diante de tarifas impostas pelos Estados Unidos, além de ações envolvendo combustíveis, energia, exportadores e setor aéreo, têm como objetivo preservar empresas, empregos e cadeias produtivas e conter pressões inflacionárias.
“Proteger a população, a economia e o país é obrigação permanente do Estado, não liberalidade eleitoral”, afirmou a Secom. A secretaria acrescentou que a legislação estabelece limites para o período eleitoral, mas não suspende a execução de políticas públicas. (Com informações de O Estado de S. Paulo)