Quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Médicos contestam benefícios de bebidas comuns com fibras, proteínas e colágeno

Cerveja zero álcool com proteína, refrigerante com fibras e até água com colágeno. As versões “fit” de bebidas comuns estão em alta no mercado de saúde e beleza.

Especialistas médicos e de nutrição, porém, alertam que não basta ter destaque na embalagem para ser eficaz. “É necessário verificar qual ingrediente foi acrescentado e em que quantidade”, ressalta André Camara de Oliveira, endocrinologista e diretor da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).

Na Ambev, uma das maiores fabricantes de bebidas do mundo, o “portfólio wellness” avançou mais de 60% em 2025 em comparação ao ano anterior. A Nestlé, veterana no segmento, já tinha o Nutren Protein 15% e avança no mercado de estética com um produto com colágeno hidrolisado líquido que promete melhoria da pele, unhas e cabelos.

Segundo Oliveira, uma bebida com cerca de 15 a 25 gramas de whey, seja de proteína do leite ou de soja, pode de fato contribuir para a ingestão proteica. O colágeno, porém, “não possui a mesma qualidade para manutenção ou ganho.”

“Nas bebidas com fibras, também importa conhecer o tipo: inulina e frutooligossacarídeos [fibras alimentares solúveis] podem provocar gases e distensão abdominal em pessoas sensíveis”, afirma o médico.

A recomendação é avaliar a composição completa, considerando açúcar adicionado, calorias, sódio, gordura saturada e cafeína, bem como a presença de poucos corantes, aromatizantes e conservantes e de lupa de alto teor da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A cautela deve ser com excesso de açúcar ou cafeína, combinações de estimulantes e produtos que destacam proteínas, fibras ou vitaminas sem informar claramente as quantidades ou que alegam benefícios como “detox”, “queima gordura” ou “fortalece a imunidade” sem evidência.

Fabiana Poltronieri, doutora em Ciência dos Alimentos pela USP (Universidade de São Paulo) e diretora da Asbran (Associação Brasileira de Nutrição), diz que pode ser “tentador beber cerveja com whey, mas o apelo é meramente de marketing.”

“Não há nenhum motivo com respaldo nutricional. O mesmo raciocínio vale para água com colágeno, que é uma proteína de baixo valor biológico, inclusive”, defende.

Bem-estar em alta

A Ambev aponta que o mercado de cervejas sem álcool cresceu 30% no Brasil no último ano. A marca lança em setembro, no Brasil, a Spaten Pro, cerveja escura sem álcool que leva whey protein e colágeno na receita. Cada lata de 350 ml contém 10g de proteína (75% whey hidrolisado e 25% colágeno) e menos de cem calorias. O grupo tem ainda Guaraná Zero com fibras da Antarctica, Corona Cero, Bud Zero, Brahma 0,0% e Skol Zero Zero, Stella Pure Gold e Michelob Ultra.

A Starbucks Brasil, por sua vez, está com uma linha de coberturas, a Cold Foam Proteico, que adiciona 19g de proteína às bebidas geladas de chocolate e baunilha. Em julho, o menu ganhou “leite proteico”, adicional do “Baunilha Latte Sem Açúcar Proteico”, “Matcha Latte Sem Açúcar Proteico”, “Latte Proteico” e “Matcha Latte Proteico”. O produto inclui a partir de 23g de proteína extra por porção nas opções quentes e 26g, nas geladas.

O Collagen Drink, da Nutrify, em quatro sabores, tem 2,5 g de colágeno, 100 mg de vitamina C, 12 g de proteínas e cerca de 53 kcal a cada 260 ml.

Mamba Water Protein, do grupo Heineken, se divulga como “suplemento alimentar líquido com 20g de proteína do colágeno + BCAA.” A página afirma se tratar de uma “água leve, sem açúcar, sem carboidrato e sem glúten”, além de não ter lactose.

Pode ajudar, mas sem substituições

Na visão da CMO (diretora de marketing) Ivete Gama, da rede Ultra Academia, o crescimento de bebidas com atributos funcionais reflete a realidade cada vez mais comum de quem tem rotina agitada, mas busca o bem-estar. “Esses produtos podem ser aliados [de quem treina e tem pouco tempo], mas não substituem uma alimentação equilibrada nem os cuidados básicos com o corpo. A saúde não está em um único produto, mas no conjunto de hábitos”, diz.

O endocrinologista André Camara de Oliveira reforça que o problema não é o consumo eventual de bebidas ultraprocessadas com quantidade adequada de proteína quando não se pode fazer uma refeição, mas quando estas “substituem regularmente água, leite e alimentos de melhor qualidade nutricional”.

O refrigerante zero com fibras, por exemplo, pode ser “menos desfavorável que o açucarado para quem já consumiria refrigerante, apesar de não ser saudável. Não substitui frutas, verduras, feijão ou cereais integrais”, ressalta.

A recomendação é seguir o contexto clínico: quem tem doença celíaca, não come glúten; gestante, não bebe álcool; nefropata não deve ingerir muita proteína, entre outros exemplos.

“Na mesma lógica, a cerveja sem álcool com whey pode fornecer proteína, mas isso não a transforma, por si só, em uma bebida adequada para recuperação esportiva, pois devem ser considerados carboidratos, eletrólitos, calorias e teor alcoólico”, diz Oliveira. Com informações da Folha de S. Paulo.

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