Sábado, 01 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 31 de julho de 2026
Não importa o gênero musical. Frases que relatam saudades, sofrência e recaídas estão na maioria das faixas que aparecem na lista das 50 músicas mais ouvidas no Brasil no streaming no primeiro semestre de 2026. O sertanejo de “dor de cotovelo”, o trap melódico e as baladas pop confessionais mostram que o brasileiro adora sofrer acompanhado de uma faixa melancólica.
Um estudo publicado na revista científica PLOS One descobriu que as emoções negativas sentidas ao ouvir uma música triste pode, na verdade, nos fazer bem – e é por isso que, geralmente, esse tipo de música é o favorito de muitas pessoas.
“É paradoxal pensar que você poderia desfrutar de algo que o faz sentir uma emoção negativa”, diz o professor Emery Schubert, autor do estudo do Laboratório de Musicologia Empírica da Escola de Artes e Mídia, UNSW Arts, Design & Architecture, em comunicado à imprensa. “Mas esta pesquisa mostra a primeira evidência empírica de que a tristeza pode afetar positivamente o prazer da música, diretamente.”
Biologicamente, a busca por músicas tristes libera neuro-hormônios como prolactina e ocitocina. A neurologista Karolina César afirma que o processo gera sensação de alívio e acolhimento.
“Pode parecer estranho, mas quando a gente está triste, nem sempre a gente quer que alguém nos retire da tristeza. Muitas vezes, antes de a gente conseguir fazer isso, a gente precisa se sentir compreendido dentro daquilo que a gente tá vivendo”, explica Pamela Magalhães, Psicóloga Terapeuta de Casal e Família e apresentadora do podcast Parece Terapia.
Para a psicóloga, por trás deste comportamento está uma necessidade humana primária de buscar representação para que a dor deixe de ser solitária. Ela explica que, quando a gente escuta uma música que traduz exatamente o nosso estado emocional, a gente experimenta a sensação de validação e de pertencimento. Até por isso muitas pessoas costumam dizer: “Essa música foi feita pra mim.”
Claro que, com as raríssimas exceções de pessoas que realmente foram homenageadas pelos compositores, a música não foi feita diretamente para aquele ouvinte. Mas algo íntimo e universal foi atingido dentro dele, fazendo com que ele sinta que, finalmente, alguém conseguiu traduzir sua experiência.
“A música abre uma porta que permite a emoção entrar e sair. Por isso, muitas pessoas choram ouvindo música e depois sentem essa espécie de alívio. O choro não é necessariamente um sinal de piora. Há momentos em que a música não nos tira do fundo do poço, mas se senta ao nosso lado. E para quem tá sofrendo, deixar de se sentir sozinho já é o começo de alguma saída.”
Comoção
Patrícia Vanzella, professora da Universidade Federal do ABC e coordenadora do grupo de pesquisa Neuromúsica UFABC, cita que o que uma pessoa sente ao ouvir uma canção triste, em geral, não é tristeza pura.
“É um estado mais complexo, agridoce, de comoção. Por isso a experiência pode ser profundamente prazerosa sem nenhuma contradição. Isso acontece porque sabemos que aquela emoção está na música e não em um perigo real. É um ambiente seguro para experimentar sentimentos difíceis sem enfrentar suas consequências”.
Se ouvir as músicas de fossa no fone ou em casa traz acolhimento, o consumo coletivo pode ampliar ainda mais essa sensação de pertencimento.
Patrícia Vanzella destaca que entoar as “sofrências” em festas, bares, shows e encontros sociais, junto com milhares de pessoas pode produzir um efeito que parece paradoxal: dor virando festa.
“Sincronizar-se com outras pessoas aumenta a sensação de proximidade e pertencimento, e o canto coletivo é um exemplo particularmente claro disso. O sofrimento deixa de ser vivido solitariamente e passa a ser partilhado”, afirma. (As informações são do g1 e CNN Brasil)