Sexta-feira, 04 de setembro de 2026

Vorcaro diz em depoimento ao Supremo que fica “desconfortável” em firmar delação premiada com a Polícia Federal pois “tinha relação com o diretor-geral”

O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou em depoimento ao gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça que fica “desconfortável” em oferecer uma nova proposta de delação premiada porque tinha uma relação “cordial” com o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues.

O dono do Banco Master disse ao longo do depoimento, prestado a um juiz auxiliar do gabinete de Mendonça, que sofreu pressões da PF para evitar que fechasse a colaboração.

“Entrou o advogado novo, a gente queria construir uma nova colaboração… Me sinto desconfortável de propor uma colaboração, em que a gente tem um diretor-geral da Polícia Federal com quem eu tinha uma relação. Que frequentou eventos, que participou de todo esse crescimento do banco (…) Ele esteve presente em diversas outras situações que eu gostaria de narrar. Não tem a menor chance disso se viabilizar e dar certo”, afirmou Vorcaro em depoimento. “Pelo meu entendimento, não há possibilidade de eu prestar uma colaboração cujos fatos envolvam as pessoas que estão escutando a corroboração”, completou o ex-banqueiro em outro trecho do depoimento.

Nos bastidores, Rodrigues tem dito a interlocutores que não tem nenhuma relação com Vorcaro e que participou de evento em Londres, mas que, na época, não foi informado de que o Banco Master patrocinaria o encontro. Auxiliares do diretor-geral da PF relatam que ele tem dito que nunca conversou com o ex-banqueiro e apenas apertou sua mão durante o evento na Inglaterra, em um encontro casual.

Vorcaro também disse no depoimento que sua proposta de colaboração premiada englobaria integrantes da atual gestão.

“Toda a minha colaboração, ela, no que tange a pessoas, são pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo. E aí, nesses momentos, teve uns casos que foram cruzadas linhas de moralidade, linhas de ilicitude, que esses eu pretendia relatar”, disse Vorcaro.

A audiência na qual Vorcaro citou o diretor-geral da PF, revelada pela colunista Bela Megale, do jornal O Globo, durou cerca de 1h40, ocorreu em 27 de agosto e não contou com a presença de nenhum integrante da PF.

No depoimento, Vorcaro alegou ter sofrido ameaças durante sua prisão porque, nos últimos dois anos, tinha uma “relação do núcleo de poder atual, incluindo a própria Polícia Federal”. Indagado pelo juiz do gabinete de Mendonça que conduziu o procedimento sobre o diretor-geral da PF, Vorcaro respondeu que teve uma “relação cordial” com Andrei, que “não chegou a ser uma amizade”.

“Uma relação de estar em eventos conjuntos, de estar em eventos de charuto, juiz, de ter uma tratativa cordial, amistosa, de ir com família em eventos do banco, convites para eventos de Fórmula 1, de outras coisas”, sustentou.

Em outro trecho do depoimento, o advogado de Vorcaro questiona se ele citaria a relação com Rodrigues em uma eventual retomada da delação. O banqueiro confirmou.

“Dentro do contexto dessa questão do evento de relações que eu acabei desenvolvendo, que eu acabei executando coisas que… para que pudesse me proteger”, frisou.

O advogado segue, questionando se, na visão do ex-dono do Master, as delações não andaram porque eventualmente Vorcaro poderia citar Rodrigues.

“Não só ele, como outras pessoas ligadas a um núcleo político que, hoje, efetivamente, existe um interesse político também. Mas sim”, apontou Vorcaro.

Sem a PF

No depoimento, o banqueiro afirmou que tem informações sobre irregularidades praticadas por pessoas que fazem parte do “atual governo”. Pessoas próximas a Vorcaro têm propalado a ideia de este é o motivo pelo qual a direção da PF não demonstraria interesse em firmar o acordo, sobretudo em período eleitoral.

Investigadores da PF refutam essa tese, dizendo que ele não relatou nenhum fato novo ou indicou meios de prova que justificassem a utilidade da colaboração premiada. Integrantes da corporação ainda classificaram as declarações sobre “intimidação psicológica” como “fantasias” que fazem parte de uma estratégica dele de fechar uma delação sem a presença da corporação. (Com informações do jornal O Globo)

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