Sábado, 15 de agosto de 2026

Decisão do governo de iniciar o processo de aplicação da Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos amplia o risco de tarifas ainda mais altas sobre produtos do País, avaliam economistas

A decisão do governo brasileiro de iniciar o processo de aplicação da Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos amplia o risco de tarifas ainda mais altas sobre produtos do País.

“Aplicar a reciprocidade a um país (os EUA) com falta de racionalidade econômica na guerra tarifária pode fazer com que as atuais tarifas de 25% sobre produtos brasileiros virem 50%”, afirmou o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Para ele, o risco merece ainda mais atenção, uma vez que os EUA “não estão aplicando boas práticas de comércio”.

Vale considera que é possível uma reação “bastante negativa” por parte dos americanos, na esteira de um cenário político desafiador. “Não é um processo simples e as saídas não serão positivas no final. Vemos um comércio entre Brasil e EUA maculado durante um bom tempo.”

O governo abriu o processo na quinta-feira em razão da imposição de tarifas por supostas práticas comerciais desleais. A tendência é adotar o caminho mais longo previsto na Lei de Reciprocidade Econômica, em vez de impor contramedidas provisórias em resposta ao tarifaço de até 37,5% imposto pelos Estados Unidos.

Conforme integrantes do governo brasileiro envolvidos na resposta ao novo tarifaço de Donald Trump, o Palácio do Planalto quer agir “dentro da proporcionalidade”, ouvindo amplamente o empresariado e estudando de forma detalhada os eventuais impactos à própria economia interna.

Segundo um integrante do governo, a preferência por seguir o processo mais longo se deve ao fato de que há setores sem opção de diversificar mercados e, por isso, mais preocupados com eventuais efeitos da medida. Entre eles, estão calçados, máquinas e equipamentos e têxtil.

Para o economista-chefe para América Latina da consultoria Pantheon Macroeconomics, Andrés Abadia, a medida “adiciona outra camada de incerteza” para a trajetória do real. “O risco de uma escalada na disputa comercial com os EUA e o eventual impacto em setores exportadores aumentam as incertezas em um momento no qual os mercados já estão mais sensíveis aos riscos políticos domésticos”, disse ele, ressaltando que a depreciação do real e o tombo da Bolsa brasileira nos últimos dias revelam que “investidores estão mais cautelosos em relação aos ativos domésticos”.

Posição semelhante tem o economista Carlos Honorato, para quem a abertura do processo para aplicação da Lei da Reciprocidade tende a reforçar a pressão sobre o câmbio e os ativos brasileiros, num momento em que o mercado começa a voltar a atenção para riscos domésticos ligados à proximidade das eleições e às preocupações fiscais.

Segundo ele, o recrudescimento das tarifas americanas e a reação brasileira, embora limitada, reforçam essa expectativa. “O governo brasileiro com a ideia de que vai retaliar, ainda que pouco, já passa um sinal de que está trabalhando nisso”, afirmou Honorato. (Com informações de O Estado de S. Paulo)

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